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Cisnes já eram vistos em Veneza antes de quarentena ter reduzido poluição

Cisnes já eram vistos em Veneza antes de quarentena ter reduzido poluição

Os cisnes frequentam os canais de Burano, uma pequena ilha na área metropolitana de Veneza, que está com águas mais limpas desde que os italianos foram colocados em quarentena para conter o avanço do coronavírus

A imprensa mundial, inclusive a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), noticiou recentemente o caso de golfinhos e cisnes que teriam retornado, após muito tempo, aos canais de Veneza, na Itália, por conta de uma redução na poluição causada pela ausência de pessoas nas ruas, por conta da quarentena imposta pelo COVID-19, o novo coronavírus. No entanto, embora grande parte da história seja verdadeira, há informações que não correspondem à realidade.

Reprodução/Twitter/@ikaveri

É verdade que as águas da região estão mais limpas desde que a circulação de barcos foi intensamente reduzida no local. Os cisnes, no entanto, não surgiram apenas agora na região, já que é comum a presença deles em Veneza, mais especificamente nos canais de Burano, uma pequena ilha na área metropolitana da cidade italiana, onde as fotos do caso foram feitas. Os golfinhos fotografados também não estavam em Veneza, mas em um porto na Sardenha, no mar Mediterrâneo, a centenas de quilômetros de distância.

A história chegou aos noticiários após viralizar nas redes sociais, tendo recebido milhares de curtidas, compartilhamentos e visualizações.

A ideia de que animais estavam vivendo livres, em um mundo sem humanos, conquistou os internautas, que se encantaram pelos registros que, lamentavelmente, não eram verdadeiros. Essas histórias, porém, podem ser aceitas facilmente pela população em tempos de crise – como aconteceu. Emocionalmente exaustas, essas pessoas se apegam a casos alegres e fazem deles uma válvula de escape.

A história dos cisnes se tornou viral após Kaveri Ganapathy Ahuja, que mora em Nova Délhi, na Índia, publicar tweets afirmando que aquilo era “um efeito colateral inesperado da pandemia”. “A água que flui pelos canais de Veneza é clara pela primeira vez para sempre. Os peixes são visíveis, os cisnes voltaram”, afirmou ao portal National Geographic.

Ahuja disse que viu algumas fotos nas redes sociais e as usou para fazer o tweet, sem ter conhecimento sobre o fato de que os cisnes já frequentavam Burano antes da chegada do coronavírus.

Reprodução/Twitter/@ikaveri

“O tweet era apenas para compartilhar algo que me trouxe alegria nesses tempos sombrios”, contou Ahuja, que não esperava que a publicação viralizasse. “Eu gostaria que houvesse uma opção de edição no Twitter apenas para momentos como este”, completou.

Porém, Ahuja afirmou que não excluirá a publicação sob a justificativa de que o tweet é revelante porque as águas de Veneza realmente estão mais claras do que o normal por conta da redução na circulação de barcos. Ela falou ainda sobre o número de curtidas e compartilhamentos gerados: “É um registro pessoal para mim, e eu não gostaria de excluí-lo”.

Desenvolvedor de sites e especialista em verificação de imagens, Paulo Ordoveza, que administra a contar do Twitter @picpedant, onde desmascara publicações virais falsas, afirmou que existe uma “ganância pela viralidade” que pode levar as pessoas a publicar notícias inverídicas. Trata-se, segundo ele, de “uma overdose da euforia que resulta do número de curtidas e retuites subir para os milhares”.

Para a psicológica social e pós-doutorada na Universidade de Stanford, Erin Vogel, receber centenas e até milhares de curtidas e comentários “nos dá uma recompensa social imediata”, gerando bem-estar. Pesquisadores já descobriram também que publicações em redes sociais são geradoras de impulsos temporários à autoestima.

Diante de uma crise, a busca por essa sensação de bem-estar pode aumentar. “Nos momentos em que estamos realmente sozinhos, é tentador manter esse sentimento, especialmente se estamos postando algo que dá muita esperança às pessoas”, afirmou Vogel. Pensar que os animais estão livres e que a natureza está se recuperando, neste caso, “poderia nos ajudar a dar uma sensação de significado e propósito – de que passamos por isso por uma razão”, segundo a psicóloga.

A professora de psicologia e estudos ambientais no College of Wooster, em Ohio, Susan Clayton, considera que “as pessoas realmente querem acreditar no poder da natureza para se recuperar”.

Reprodução/Twitter/@ikaveri

“As pessoas esperam que, não importa o que tenhamos feito, a natureza seja poderosa o suficiente para se elevar acima dela”, disse.

Dados do Pew Research Center indicam que aproximadamente metade dos norte-americanos acredita ter sido exposta a notícias falsas relacionadas ao coronavírus. E embora histórias irreais sobre animais livres na natureza, disseminadas em meio ao caos causado pela pandemia, não sejam muito problemáticas, elas podem causar danos ao dar esperanças falsas às pessoas em tempos de crise.

Segundo Vogel, histórias falsas que promovem bem-estar nas pessoas podem deixá-las ainda mais desconfiadas após a farsa ser descoberta. Descobrir que tudo não passava de mentiras, em momentos em que a crise deixa a população emocionalmente vulnerável, “pode ​​ser ainda mais desmoralizante do que nunca ouvi-las”.

A psicóloga lembrou ainda que é provável que compartilhar histórias inspiradoras e motivacionais seja fundamental para ajudar as pessoas a enfrentar a crise do COVID-19 com mais ânimo. Essas histórias, porém, precisam ser reais. “Eu encorajaria as pessoas a compartilhar coisas positivas. Mas não precisa ser nada dramático. Só tem que ser verdade”, concluiu.