Tecnologia

Lia Assumpção | Economia circular: nostalgia rima com tecnologia?

Lia Assumpção | Economia circular: nostalgia rima com tecnologia?

Falei de economia circular aqui outro dia e li alguns comentários que lembravam de um tempo — que eu também me lembro — em que a gente devolvia cascos de refrigerante e cerveja para comprar mais dos líquidos. 

De quando eu era criança — e detestava esse dia de ir no mercado e ficar na fila pra entregar garrafas de vidro, pegar um papelzinho que dizia quantas você tinha devolvido — até hoje, muita coisa mudou. E me pergunto se isso, que talvez pareça óbvio como solução, na prática, é mesmo viável. Isso porque naquele tempo, nossa vida ainda não tinha sido invadida pelo descartável. E quando atravessamos a fronteira do descartável, mudamos radicalmente a maneira como consumimos produtos e, principalmente como eles são produzidos e comercializados.

Tem um livro de 2001 que fala bastante da velocidade dos avanços tecnológicos e como isso interfere na nossa vida e como isso é irreversível. Sim, eu sei que um monte de gente fala disso, mas digamos que ele foi o primeiro que me emocionou. Tem uma frase que talvez tenha sido o primeiro convite que aceitei para estudar esses assuntos todos: "A crítica, portanto, é o modo de a sociedade dialogar com as inovações, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobramentos." *

É um pouco como se tivéssemos adotado o descartável — encarando-o como uma nova tecnologia na época em que começou a vigorar – sem nenhuma crítica. Tudo normal na evolução das tecnologias, uma parte ainda caminha sem saber direito das consequências, uma parte faz avançar muito a vida das pessoas. No mundo da medicina, por exemplo, o descartáveis solucionaram uma imensidão de problemas. Um efeito colateral é o lixo. E o tempo todo, jogamos nos acertos e consequências e é preciso sempre avançar e recuar e assim por diante… Mas fato é que agora estamos lidando com essa consequência e é urgente que façamos.

No caso das embalagens de bebidas, por exemplo, existem empresas preocupadas com os retornáveis e existem algumas fazendo sua parte. Mas, salvo em tempos de crise em que a diferença do valor economizado com embalagens é relevante, muita gente prefere não precisar guardar vasilhames, colocar no carro ou ir de ônibus até o mercado devolver. 

Conversando com uma amiga que trabalhou muito tempo em um empresa muito grande de bebidas, ela me disse uma palavrinha mágica: conveniência. Nas pesquisas da empresa em que ela trabalhou, uma das coisas que não dava certo na devolução de embalagens era isso, acabava sendo inconveniente para o consumidor. E é que aí mora a sequela dos anos de descartáveis que vivemos. Depois de se habituar a não ter que devolver cascos, talvez não seja tarefa simples voltarmos a fazê-lo. 

Por isso, talvez não seja possível voltarmos ao tempo em que eu ficava na fila com a minha mãe para trocar os cascos de refrigerante, também não sei se seria o caso. Esse tempo porém, dá pistas para soluções contemporâneas de problemas contemporâneos que podem ser solucionados com tecnologias, também contemporâneas. O modelo de devolução de cascos, certamente poderia servir de base para, valendo-se do nosso presente e de todas as tecnologias disponíveis, propor maneiras de distribuição de bebidas que gerassem menos — ou quem sabe nenhum — lixo. Que olhasse criticamente o modelo de compra-uso-descarte vigente e propusesse uma nova maneira na produção, distribuição, consumo e pós consumo das bebidas, por exemplo. Que se pensasse na economia circular que se adequa ao nosso presente e não à economia linear que um dia também nos foi adequada. 

Da mesma maneira que houve uma mudança ali, logo depois daquele momento em que eu estava na fila com a minha mãe, há necessidade de uma mudança agora. E já que me lembrei desse livro que me trouxe um pouco aqui para todos esses assuntos, apesar de ele não ser exatamente novo, termino com a chamada que ele me fez: "Deixamos para pensar nos prejuízos depois, quando pudermos. Mas o problema é exatamente esse; no ritmo em que as mudanças ocorrem, provavelmente nunca teremos tempo para refletir, nem mesmo para reconhecer o momento em que já for tarde demais." *

* O livro chama "A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa", da Editora Companhia das Letras. O autor é o Nicolau Sevcenko.