Política

Protestos em meio ao surto de covid-19 | Em ato, Bolsonaro ignora próprio governo e toca em apoiadores

Protestos em meio ao surto de covid-19 | Em ato, Bolsonaro ignora próprio governo e toca em apoiadores

Quatro dias após retornar do exterior, o presidente (sem partido), sem máscara de proteção, encontrou seguidores, trocou apertos de mão, pegou celulares de apoiadores para fazer selfies e elogiou os atos de hoje da direita.

Na última sexta (13), Bolsonaro anunciou que um primeiro exame apontou que ele, ao contrário do secretário de Comunicação com quem viajou aos Estados Unidos, não se infectou com coronavírus. Ao UOL, um dos médicos do presidente, Antônio Luiz Macedo, disse que um segundo exame de Bolsonaro para o coronavírus teve resultado negativo.

Ainda assim, há a expectativa de que Bolsonaro possa fazer outro exame devido ao período de incubação do vírus. Pelo menos seis pessoas da comitiva presidencial aos Estados Unidos constataram estar infectadas.

Bolsonaro não segue recomendação do próprio Ministério da Saúde

Bolsonaro não seguiu recomendação do Ministério da Saúde, que pede que pessoas que estiveram no exterior fiquem sete dias em casa ao retornar ao Brasil, afastando a possibilidade de contágio.

No Palácio do Planalto, Bolsonaro empurrou a cerca que protege o Planalto para chegar mais perto das pessoas no local. Enquanto isso, os manifestantes o chamavam de "mito", tiraram selfies e deram biscoitos ao presidente. Ele ficou mais de uma hora em contato com os apoiadores.

"Não tem preço o que as pessoas estão fazendo", resumiu.

Bolsonaro faz selfies com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília - Felipe Pereira/UOL
Bolsonaro faz selfies com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília
Imagem: Felipe Pereira/UOL

Bolsonaro foi ao Palácio do Planalto por volta das 13h após dar um passeio de carro no comboio presidencial por Brasília.

Quando passou ao lado do ato promovido na Esplanada dos Ministérios, foi aplaudido. A Polícia Militar do Distrito Federal não informa quantas pessoas estavam no local.

Após sair do Planalto, Bolsonaro seguiu para o Palácio da Alvorada, residência oficial onde mora em Brasília. Ele desceu do carro na portaria e cumprimentou novamente apoiadores sem máscara. Bolsonaro usava camiseta da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com colete à prova de balas por baixo.

Nesse meio período, o Ministério da Saúde publicou nas redes sociais pedido para que pessoas de 60 anos ou mais e doentes crônicos busquem o isolamento para evitar o contágio pelo coronavírus por serem os mais vulneráveis da população.

Bolsonaro tem 64 anos e teve problemas de saúde recentes, como complicações após facada sofrida em Juiz de Fora em setembro de 2018.

Questionada pelo UOL sobre o passeio de carro pela capital federal, a Presidência disse se tratar de "agenda pessoal". Indagada sobre o fato de o presidente não seguir o protocolo recomendado pelos médicos e pelo próprio Ministério da Saúde, a Presidência ainda não se manifestou.

Objetivo dos atos: apoiar Bolsonaro contra Congresso e STF

As manifestações contam com cartazes contra o Congresso e o (Supremo Tribunal Federal). Os participantes dos atos acreditam que os parlamentares e os ministros do Supremo atrapalham o governo Bolsonaro — embora os Três Poderes sejam independentes entre si.

Manifestante no ato na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro - Érica Martin/AM Press & Imagens/Estadão Conteúdo
Manifestante no ato na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro
Imagem: Érica Martin/AM Press & Imagens/Estadão Conteúdo

Os atos ganharam força também com a disputa entre Congresso e Bolsonaro por R$ 30 bilhões do Orçamento — parte dos parlamentares quer ter maior poder de decidir como e quando esses valores serão gastos.

Bolsonaro chegou a fazer um acordo para reduzir essa fatia para R$ 15 bilhões, mas passou a usar as redes sociais, e agora os protestos nas ruas, para garantir que toda a verba seja coordenada pelo Executivo.

Ao longo dos apertos de mãos de Bolsonaro com os manifestantes, estes também gritavam "desculpa, presidente, mas eu vim" e "fora, Maia", em referência ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Presidentes da Câmara, do Senado e do STF em silêncio

Até a última atualização desta reportagem, Rodrigo Maia, o presidente do Congresso e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, ainda não haviam se pronunciado sobre as manifestações deste domingo.

Em Brasília, manifestantes tentaram identificar jornalistas da TV Globo e da Folha de S.Paulo e ameaçaram com gritos de que iriam "botá-los para correr". Um carro da Folha chegou a sofrer tentativa de depredação na Esplanada dos Ministérios.

Manifestações pelo Brasil e desdenho pelo coronavírus

Neste domingo, houve atos em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF), Salvador (BA), Maceió (AL), São Luís (MA), Caruaru (PE), Parnaíba (PI), Feira de Santana (BA), Imperatriz (MA), Ribeirão Preto (SP) e Belém (PA).

Fortaleza (CE), Recife (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN) e Aracaju (SE) têm atos marcados para esta tarde. A única capital da região que não tem manifestação programada é Teresina (PI).

Faixa a favor da ditadura é exibida em protesto na Avenida Paulista, em São Paulo - Breno Castro Alves/Colaboração para o UOL
Faixa a favor da ditadura é exibida em protesto na Avenida Paulista, em São Paulo
Imagem: Breno Castro Alves/Colaboração para o UOL

Faixas, cartazes e discursos feitos durante os atos de hoje pelo país mostraram que muitos manifestantes que foram às ruas ignoraram os riscos do coronavírus e, em alguns casos, minimizaram e até fizeram piada do Covid-19.

No ato na Avenida Paulista, uma das principais vias da cidade de São Paulo, nem todos afirmaram acreditar no potencial fatal do coronavírus.

"Antes de tudo precisamos nos livrar do comuna vírus", avaliou a manifestante Ligia Grande, 64, que compareceu ao protesto na avenida Paulista abraçada na bandeira do Brasil e carregando seu frasco de álcool gel.

Sua irmã Eliana Sposato, 74, e o marido, Paulo Cesar Grande, 65, a acompanhavam. Paulo Cesar afirmou: "esse vírus pode muito bem ser uma ação de guerra da China. Pense a respeito, a guerra para fábricas, para viagens, causa medo, tudo que estamos vendo hoje. Vejo uma ação coordenada pela China comunista para derrubar a economia do planeta".

Em Salvador, pela manhã, o locutor gritou ao público que "quem sobreviveu ao 'Lula vírus', ao 'Dilma vírus', vai sobreviver ao coronavírus".

O ex-governador do Piauí, ex-senador e atual prefeito de Parnaíba, o médico Mão Santa (DEM), participou hoje do ato na cidade que governa. Entretanto, um dia antes ele disse que o coronavírus é "um viruszinho boiola", e que "muito pior é o Congresso."