Política

No Rio de Janeiro | Como surgiu grupo de rubro-negros que fez ato contra bolsonaristas

No Rio de Janeiro | Como surgiu grupo de rubro-negros que fez ato contra bolsonaristas

Com o apoio de torcedores rivais, um grupo de maioria rubro-negra protestou contra o em Copacabana no último domingo (31).

Sem ligação com torcida organizada ou movimento popular específico, mais de 30 torcedores se juntaram, confeccionaram uma faixa em alusão ao Flamengo e em resposta ao que consideram "políticas fascistas" no país. Diferente de outras manifestações favoráveis ao presidente, o ato acabou coibido pela Polícia Militar.

O grupo foi criado em um aplicativo de troca de mensagens por rubro-negros de diversos setores da arquibancada, contando com o apoio de outros torcedores críticos ao governo e ao presidente da atual diretoria do clube, Rodolfo Landim —ele é a favor do retorno do futebol durante a pandemia e se encontrou com Bolsonaro no dia 19 de maio.

Alguns integrantes do grupo sequer vão aos jogos no Maracanã e dão continuidade às bandeiras levantadas pelo movimento Não vai ter Copa, de 2013, contrários à elitização dos estádios e ao preço dos ingressos, que consideram abusivos. O ticket médio para a disputa da Libertadores, vencida pelo Fla em 2019, por exemplo, era de R$ 67.

A proposta dos torcedores era responder a uma manifestação bolsonarista. Quando se confirmou o ato pró-governo do domingo —que já havia sido cancelado duas vezes—, eles convocaram em cima da hora torcedores de times rivais. Movimentos de tricolores e vascaínos estiveram lado a lado com o grupo.

"Pedimos que todos fossem de preto para mostrar a união na contraposição ao que prega o Bolsonaro. Acima de tudo é um governo incompetente, independente da ideologia. Estamos na maior pandemia do século e nem ministro da Saúde temos. Estamos representando milhões de pessoas que estão revoltadas e se sentindo desamparadas, mas corretamente evitam as ruas por conta do isolamento social", relatou ao UOL um dos manifestantes.

Apesar de o momento pedir isolamento social, conforme recomendam autoridades de saúde, os torcedores entenderam que era hora de agir. "Foi um levante que exigiu essa decisão. O momento de luta urge. É infelizmente mais importante do que a pandemia", disse o torcedor, que preferiu não se identificar.

Para organizadores, o ato de domingo num contexto ideal, não existiria. Mas, conforme citou um deles, a mobilização se fez necessária após o .

"É uma coisa muito absurda. Estamos em pandemia, mas temos o problema da endemia da supressão dos direitos civis. Termos que ir em grupos pequenos defender questões que todos deveriam entender facilmente. Isso mostra que a gente tem uma doença seríssima na sociedade que é a não-compreensão do processo civilizatório. Não é possível que a gente precise gritar que a democracia é um bem comum a todos", afirmou um dos líderes.

A reportagem do UOL teve dificuldade de falar com integrantes do grupo, que estão sob ameaças como a do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), conhecido por quebrar uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio em 2018. Em vídeo, Silveira afirmou torcer para que um dos opositores .

Ato no Rio teve brigas, bombas e detidos

Curiosamente, a primeira confusão no ato em Copacabana aconteceu em uma discussão entre moradores idosos, que se conhecem, mas divergem politicamente. Mais inflamado, o bolsonarista —vestindo a camisa da seleção brasileira— jogou uma lata na direção do outro homem, iniciando uma briga.

Foi o suficiente para a Polícia Militar atirar duas bombas de efeito moral, dissipando a manifestação.

"O Daniel Silveira mandou a PM pegar nossa faixa para queimar. Corremos com a faixa e a polícia jogou duas bombas de gás. Roubaram uma faixa de mão de uma menina e tentaram agredir um coletivo de vascaínas que estavam lá. Quando ele [o manifestante que tomou a faixa] fugiu, foi amparado pela polícia. Esse é o tamanho do absurdo: a polícia protegeu uma pessoa que roubou e tentou agredir mulheres de maneira flagrante", conta outro manifestante, que também preferiu não se identificar.

Agressões foram registradas em ambos os lados. Dois homens foram detidos. A polícia chegou a algemar alguns manifestantes que contudo não foram conduzidos à delegacia porque os agentes não souberam justificar o motivo das detenções —um advogado acompanhava o ato e outros manifestantes gravaram em vídeo o momento dessas abordagens.

Procurada, a Polícia Militar afirmou, por meio de nota, que "policiais do 19º BPM (Copacabana) acompanharam uma aglomeração de pessoas que aconteceu na orla de Copacabana, zona sul do Rio. Durante o ato, houve uma confusão entre participantes de dois grupos e os agentes fizeram uso progressivo da força desde a verbalização até o uso de armamento de menor potencial ofensivo. Um policial militar ficou ferido no rosto, após um manifestante jogar uma garrafa contra a equipe. Ele foi encaminhado para o UPA de Copacabana. Duas pessoas foram conduzidas para a 12ª DP, onde a ocorrência foi registrada."

Assim como em São Paulo, onde integrantes de torcidas organizadas em nome da discordância ao governo Bolsonaro, a proposta do grupo no Rio é repetir os atos com mais gente, incluindo ainda mais torcedores de outros clubes. "Não temos receio [das ameaças]. Os atos vão se repetir", defendeu um dos manifestantes.