Política

Exclusivo | 'A gente começa a pôr operações em dúvida', diz ex-Lava Jato sobre 'politização' de ação

Exclusivo | 'A gente começa a pôr operações em dúvida', diz ex-Lava Jato sobre 'politização' de ação

O ex-procurador da Lava Jato Carlos Fernando dos Santos Lima afirmou hoje que operações da Polícia Federal poderão ser colocadas em dúvida se usadas para projetos políticos. A declaração foi feita no UOL Entrevista de hoje, ao ser questionado sobre a Operação Placebo, no Rio de Janeiro.

"Olha, nessa operação de hoje, eu acredito até porque ela teve origem no STJ, foi uma investigação feita nos inquéritos de Brasília, pela equipe de Brasília. Eu acredito que nada tenha a ver efetivamente com uma perseguição política ao governador Witzel", iniciou ele.

"Entretanto, quando você coloca a deputada Zambelli e o próprio Bolsonaro, que começam a politizar essa operação com a PF, a gente começa a colocar em dúvida operações que, a princípio, seriam legítimas. Hoje, nós vimos uma investigação séria comandada pelo ministro do STJ, mas, infelizmente, já tingida desta natureza política que, infelizmente, o governo Bolsonaro deu à Polícia Federal.", acrescentou.

O ex-procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima atuou na força-tarefa da Lava Jato entre 2014, quando foi deflagrada a primeira fase da operação, até setembro de 2018.

Em março do ano seguinte aposentou-se no Ministério Público.

Desde então, Lima tem adotado um discurso crítico em relação a políticos e também , em entrevistas e por meio das redes sociais.

Um dos principais defensores da bandeira anticorrupção, o ex-procurador foi, talvez, o crítico mais tenaz da reação política contra a Lava Jato, entre integrantes da força-tarefa, na época.

Ele chegou a afirmar, por exemplo, que os membros do Congresso promoviam uma "reforma política para manterem um sistema e se manterem no Poder, como deputados federais e senadores, mas também com foro privilegiado".

Reunião de 22 de abril

Santos comentou, ainda, a reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo na íntegra foi divulgado na última sexta-feira (22). "Nós temos que dividir aquela reunião em diversos aspectos. Olhando no todo, ela cada vez mais me atemoriza. O tom, a maneira como foi desenvolvida, o todo da reunião me atemoriza. De repente, nós vemos um presidente cercado de militares falando em armar a população para defender princípios que são dele, contra governadores e prefeitos, em um ambiente em que é mencionado até mesmo um serviço de inteligência particular", disse.

"Este aspecto chavista da reunião me deixou muito assustado. Eu não acreditava na possibilidade de nós estarmos em um risco institucional. Olhando pelo aspecto da acusação do Moro, a reunião deixa claro que o objetivo do Bolsonaro era interferir na PF com interesse em informações. Informações para evitar problemas para seus filhos, seus amigos. Mas me preocupa muito toda vez que um político se aproxima da polícia, ele tem normalmente três objetivos: ter informações úteis na vida política, proteger a si, seus parentes e família, e usar como perseguição política", afirmou.

Segundo Santos, Bolsonaro não consegue diferenciar seu papel como presidente da pessoa . "Isto deve ser apurado, inclusive, esse serviço de informações paralelo, que me parece esse o objetivo de intervenção na PF. Mas eu não tenho dúvida de que crimes aconteceram e já vêm acontecendo há um tempo."

"Principalmente, quando ele fala da família e amigos. A história da segurança é totalmente ilógico. A segurança não envolve os amigos. Em conjunto com as próprias mensagens que ele trocou com Moro antes da reunião, depois da reunião, não tem como desqualificar aquela prova", disse o ex-procurador.

"O interesse de Bolsonaro em intervir na PF para proteger filhos e amigos me parece certo. Se isso foi obstado por até aquele momento, é uma questão. Mas quando ele fala em 'serviço de inteligência particular', aí eu fico na dúvida."

"Especialmente agora que nós estamos vendo certos vazamentos aconteceram, inclusive pressionando jornalistas com divulgação de informações fiscais a respeito deles e da família, eu fico?", disse.