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Moro corre o risco de perder tudo depois de ter conquistado muito – Por Nonato Guedes

Moro corre o risco de perder tudo depois de ter conquistado muito – Por Nonato Guedes

Independente da orquestração movida por amplos setores da classe política e do Judiciário para vê-lo em desgraça, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, de certo modo está contribuindo para sua degola depois de uma ascensão fulminante na vida pública do país, ao não oferecer explicações convincentes para as conversas mantidas com expoentes do Ministério Público, em plena fase de execução da Lava-Jato. O que se questiona, do extrato dessas conversas reveladas pelo site “The Intercept Brasil”, é a postura antiética que Moro teria adotado quando juiz comandante da Lava-Jato, na ânsia de apresentar resultados, o que coloca em xeque a imparcialidade de atos graves como, por exemplo, a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

Tudo se tornou nebuloso para a opinião pública, embora Sérgio Moro ainda não tenha perdido totalmente o capital de popularidade ou de apoio a medidas corajosas que tomou no período anterior ao exercício do ministério que lhe foi dado pelo presidente Jair Bolsonaro, até como estratégia para revestir de credibilidade um governo que, se sabia, não estaria à altura dos imensos desafios da conjuntura nacional. Pergunta-se até que ponto Moro “colaborou” com a campanha de Jair Bolsonaro, o outsider da política, repassando informações obtidas de processos que tramitavam na Décima Terceira Vara da Justiça em Curitiba, onde Moro e procuradores como Deltan Dallagnol se projetaram no auge das prisões da Lava-Jato. Na sequência, depois da prisão do ex-presidente Lula e do seu impedimento em concorrer ao Planalto novamente, teria advindo a tratativa entre Bolsonaro e Moro para este ser ministro do governo, com a condição de vir a ser nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal, que seria a suprema glória para o magistrado paranaense que despontou na pele de “salvador da Pátria”.

Tem sido dito por historiadores, como Ruy Fausto, que a situação complicada em que o ministro Sérgio Moro se enredou não absolve o Partido dos Trabalhadores dos crimes cometidos, que indignaram ministros do Supremo Tribunal Federal a partir do julgamento do mensalão, episódio definido por um deles, o sergipano Carlos Ayres de Britto como “um ponto fora da curva”. Ainda que seja a mais pura verdade o que o historiador declarou, não parece haver cenário de alívio para o ministro Sérgio Moro diante do sufoco que está atravessando. Alguns dos mesmos ministros do Supremo que condenaram Lula e outros petistas ilustres, remanescentes até do “ponto fora da curva” que foi a maracutaia do mensalão, estão, hoje, revendo votos proferidos e juízos de valor emitidos em sessões históricas, memoráveis, do STF, quando se indignaram com a montagem de uma “quadrilha” especializada em assaltar o poder, nascida nos porões do lulopetismo. A dados de hoje, tais ministros são condescendentes com o ex-presidente Lula e investem furiosamente contra Moro.

Por trás do ódio a Sérgio Moro há “instintos primitivos”, parodiando o ex-deputado Roberto Jefferson, do PTB, da parte de vestais do Supremo Tribunal Federal. A precipitação, por Bolsonaro, da provável nomeação de Sérgio Moro para uma cadeira no STF açulou esses “instintos primitivos”, desencadeando toda a sorte de sentimentos de inveja e antipatia que certos ministros e autoridades nutrem com relação à figura emblemática de Moro – justamente por ter se tornado emblemática no papel de justiceiro contra a corrupção institucionalizada. Também ecoam manifestações de ojeriza ou antipatia a Moro na classe política, pela perspectiva de que ele viesse a ser um candidato em potencial à presidência da República em 2022, com o apoio de Bolsonaro.

É bem verdade que nas últimas horas essa decantada “candidatura” de Moro a presidente da República entrou em processo de desaquecimento, a partir de declarações suas de que, em qualquer hipótese, o candidato preferencial é o presidente Jair Bolsonaro, que tem direito à reeleição, já está enfronhado no mister da política – foi outsider apenas “de agá”, como presidenciável – e poderá vir a dispor de instrumentos valiosos e poderosos contra qualquer nome, a partir da aprovação da reforma da Previdência, dependendo de como vier o desenho final das votações que tendem a ganhar corpo a partir desta semana na Câmara dos Deputados e no Senado.

Moro foi longe demais, ao ser alçado da condição de juiz de uma Vara em Curitiba ao papel de poderoso ministro da Justiça, onde controla a Polícia Federal e outros organismos de investigação bastante influentes. No Brasil, já foi dito, o sucesso pessoal é uma ofensa. Mas, para além disso, concorre para dificultar a posição de Sérgio Moro o cipoal de dúvidas em torno da sua conduta em passado recente, quando estava do outro lado do “front”, com plenos poderes para mandar prender ex-presidentes da República, como se deu com Lula. Caberia a Moro tentar preservar, pelo menos, o que já conquistou, ou seja, salvar alguns anéis para não perder os dedos todos das mãos. Só depende dele, acreditem!

Nonato Guedes

Fonte: Nonato Guedes

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