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Escola usa vídeo com sugestão de estupro e expressão racista para vender aulas; VEJA

Escola usa vídeo com sugestão de estupro e expressão racista para vender aulas; VEJA

A escola Estratégia Concursos usou um vídeo que sugeria a morte de uma mulher branca por fazer sexo com homens negros, junto com a expressão “a situação fica preta”, para chamar atenção nas redes sociais para seus cursos, que incluem aulas a futuros juízes, promotores, delegados, policiais e para aprovação em entidades de classe.

A publicação, que já foi apagada, nomeia a mulher como “concurseiro” e os três homens como “examinadores do Cespe”. O Cespe (Centro de Seleções e de Promoções de Eventos) da Universidade de Brasília é uma das bancas avaliadoras mais bem conceituadas do país.

O site do Correio Braziliense salvou o vídeo antes que fosse removido. Confira:

O post ainda tem como legenda que “o concurseiro estuda com material pouco profundo, sem clareza, não faz questões da banca; ou seja, sem a retaguarda de conhecimentos que aguente a profundidade em que a banca introduz os conteúdos e diversas posições doutrinárias! E aí a situação fica preta!”.

Em nota encaminhada para a Ponte, a empresa nega que a postagem seja racista ou que faça apologia ao estupro. “Estão nos imputando crimes que não foram cometidos. Não haverá retratação pois consideramos o caso encerrado. Já deletamos o post, inclusive”, diz trecho do comunicado.

Racismo, apologia ao estupro e sexismo

A advogada Dina Alves, coordenadora do departamento de Justiça e Segurança Pública do IBCCrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), analisou a publicação a pedido da reportagem. Para ela, há ocorrência de três crimes: racismo, apologia ao crime de estupro e constrangimento contra as mulheres.

Na análise de Dina, “a mulher aparece como objeto sexual e o incentivo à cultura do estupro e a naturalização da violência de gênero”. Ela também pontua “o racismo explícito na forma como é mostrada a imagem mítica do homem negro como estuprador. Essa imagem e o post devem ser contextualizados com o imaginário que se tem do corpo negro como nato à criminalidade e inapto à cidadania”, pontua.

Para Dina Alves, é revelador como a escravidão passada se transforma em novas formas de naturalização do racismo na atualidade. “O corpo negro perpassado por diversas formas de violências: sexual, estigmas, promíscuo, delinquente. A estratégia do racismo e a forma como ele opera na mentalidade dos seus perpetradores é justamente atribuir aos negros, negras e indígenas, a marca de estupradores e criminosos”.

Questionada sobre a nota encaminhada pela empresa, que negou o racismo e outros crimes, Dina Alves foi enfática. “Se não tinha intenção de serem racistas, porque então utilizou pessoas negras e a frase para se referir que a situação fica preta?”, conclui.

Para instituição, crítica é “mimimi”

A Estratégia Concursos é famosa em seu seguimento, o que se pode notar através de sua conta no Instagram que tem 1,2 milhão de seguidores. Lá, em sua biografia, se coloca como “líder na preparação de alunos para concursos públicos”.

A empresa tem como diretor presidente Heber Felipe Araujo de Carvalho, além dos sócios Mario Rodrigues Pinheiro, Ricardo Vale Silva e Antonio Sergio da Silva Mendes Junior. Segundo publicação do site Brazil Journal, os quatro são ex-oficiais do Exército Brasileiro.

Ainda de acordo com a publicação do site, a Estratégia Concursos conseguiu, no final do ano passado, levantar R$ 100 milhões com a gestora Axxon, que adquiriu uma parte minoritária da escola. Somente no ano de 2018, a Estratégia teve um faturamento de R$ 140 milhões.

Indignada com a publicação, uma mulher chegou a cobrar uma retratação da instituição de ensino nos comentários da própria postagem. No entanto, recebeu como resposta que era “mimimi”.