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Em Alter do Chão | Polícia fez apreensão sem explicar motivo, diz diretor de ONG

Em Alter do Chão | Polícia fez apreensão sem explicar motivo, diz diretor de ONG

"Fomos surpreendidos por agentes da Polícia Civil armados até os dentes com metralhadoras, assustando as pessoas que estavam no escritório da organização. Não tivemos acesso a nenhum documento de decisão judicial ou mandado de busca que explicasse o que eles vieram fazer. Acabaram levando tudo, computadores, servidor, documentos."

O desabafo foi feito ao blog por Caetano Scannavino, coordenador do Projeto Saúde e Alegria, uma das mais importantes organizações de defesa dos direitos dos ribeirinhos e do meio ambiente da Amazônia. Fundada em 1987, atende a mais de 30 mil pessoas, atuando na saúde básica e da família, em projetos de desenvolvimento sustentável, na educação e inclusão digital, no manejo agroecológico, entre outras atividades na região de Alter do Chão – ponto turístico de águas cristalinas no rio Tapajós, próximo à Santarém (PA). Ele afirma que estão colaborando com as investigações, mas espera que tudo seja esclarecido.

A ONG foi um dos alvos de uma operação de busca e apreensão na manhã desta terça (26). De acordo com a Polícia Civil, uma investigação conduzida por eles apontou indícios que a Brigada de Incêndio de Alter do Chão teria colocado fogo na mata para apagar e ganhar doações. Quatro membros da Brigada foram presos. Para a polícia, o Saúde e Alegria teria servido para captação de recursos. Organizações ambientalistas reclamam do que chamam de perseguição.

Nilto Tatto, coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista da Câmara dos Deputados, divulgou nota repudiando a operação. "Dessa vez, a tentativa de criminalização visa envolver, além da Brigada de Alter do Chão, fundamental no combate aos incêndios florestais na região, a ONG Projeto Saúde e Alegria, que sofreu busca e apreensão de documentos institucionais em um inquérito onde sequer tomaram conhecimento, e o WWF, organização com um longo histórico de trabalho e luta contra a degradação ambiental."

Tatto afirmou que o episódio se soma a "tentativas do governo Bolsonaro de criminalizar, sem provas, como quando sugeriu participação do Greenpeace nos vazamentos de óleo no Nordeste, a fala maldosa de que as ONGs seriam autoras dos maiores incêndios florestais promovidos por criminosos ambientais na Amazônia, e a tentativa de criação de uma CPI das ONGs".

Leia a entrevista com Caetano Scannavino:

O que aconteceu na ONG Saúde e Alegria nesta terça?

Fomos surpreendidos por agentes da Polícia Civil armados até os dentes com metralhadoras, assustando as pessoas que estavam no escritório da organização. Não tivemos acesso a nenhum documento de decisão judicial ou mandado de busca que explicasse o que eles vieram fazer. Acabaram levando tudo, computador, servidor, documentos. Depois soubemos que houve também a prisão dos rapazes da Brigada. Um dos presos é um empregado do Saúde e Alegria, uma pessoa que a gente conhece e é idônea. Me surpreende muito a acusação de que essas pessoas colocaram fogo na floresta de Alter do Chão e, depois, desviaram recursos e não prestaram contas. São pessoas com compromisso ambiental seríssimo. É uma situação draconiama e kafkaniana, muito difícil de entender. Foi um dos dias mais tristes de 31 anos de sucesso do Saúde e Alegria.

De onde partiu a ordem?

Isso foi uma ação da Polícia Civil e o mandado de busca veio da Vara Agrária de Santarém, que tem mais relação com assuntos do agronegócio. O que nos incomoda é que há uma narrativa tremendamente falsa. Desconhecemos a relação do Saúde e Alegria com todo esse imbróglio, gostaríamos de saber o que temos a ver com isso. O que a gente lamenta é que o país caminha para uma inversão de valores – o "cidadão de bem" é o que comete o crime ambiental e o "cidadão do mal" é quem denuncia o crime. Uma situação como essa fere a democracia de um país.

Disseram que vocês financiavam o trabalho deles?

Eles falaram que a Brigada vinha captando recursos com CNPJs de outras ONGs, inclusive a nossa, o que é um absurdo. Mas eles têm conta bancaria e CNPJ próprio. Não participo da administração e da gestão, eles têm conta separada. Mas sou um entusiasta de campanhas de crowdfundings, como a que eles realizam para captar recursos. Sempre vou apoiar esse tipo de iniciativa.

Já tinham passado por situação semelhante?

Nesse nível, não. Recebemos ameaças de morte anônimas. Eu escrevo muito, se lerem meus textos na Folha de S.Paulo e na Carta Capital verão que tenho 31 anos de vida dedicados aos ribeirinhos, ao meio ambiente, ao trabalho em Santarém. Eu não fiquei mais rico, fiquei mais pobre. Usei parte da herança do meu pai para apoiar o projeto. Então, a gente lamenta muito. Mas tem certeza que essa narrativa absurda vai se quebrar.

Acredita que isso está relacionado ao atual contexto político do país?

Creio que sim, mas não tenho provas. Não trabalho com mentiras, apuro muito antes de afirmar. Mas o ambiente que se criou na Amazônia, contra a sociedade civil, é destrutivo. Se é ONG, vira imediatamente comunista ou subserviente a interesse de governos internacionais. Não se separa o joio do trigo. Para se construir, demora anos de trabalho duro, para destruir uma manhã. Mas esperemos que os fatos sejam apurados. Convoco outras instituições para investigação paralelas. Desafio a Justiça a comprovar que contas do Saúde e Alegria tenha malversação de recursos. E me solidarizo com os meninos que estão presos e que vão passar a noite na prisão.

O que vocês pretendem fazer agora?

Entender o que está acontecendo, do que estamos sendo acusados, trazer a verdade à tona, cobrar uma verdadeira apuração dos fatos e obviamente estamos printando todo o tipo de acusação leviana com relação à nossa organização e aos funcionários para tomar as medidas cabíveis quanto às calúnias. Nossa felicidade é que a grande maioria, dentro e fora do Brasil, está se mostrando solidária.