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Página Cinco | Hora de aprender com quem já viveu o fim do mundo

Página Cinco | Hora de aprender com quem já viveu o fim do mundo

Foto: Henry M. Nakashima/ Foto 21

É curioso como alguns livros crescem dentro de nós tempos depois da leitura.

Li "Ideias Para Adiar o Fim do Mundo", do Aiton Krenak (Companhia das Letras), antes mesmo do lançamento, ali pelo meio de 2019. Gostei e escrevi sobre ele. É um livro necessário, que pipocou na lista de melhores do ano de muita gente.

Agora, com a pandemia do coronavírus, aquelas 88 páginas voltaram ao meu imaginário e tomaram uma dimensão bem maior do que na ocasião da leitura. Quer seguir o clichê e ler "A Peste", do Camus, ou "Ensaio Sobre a Cegueira", do Saramago, por conta do nosso triste momento? Siga em frente, estamos falando de dois gigantes da literatura mundial. Mas é no livro de Krenak que penso desde que o problema começou a se aproximar do Brasil.

E penso por conta da perspectiva adotada por Ailton para escrever os três breves textos que compõem a obra: a de um intelectual indígena cujos antepassados vivenciaram o fim do mundo, sendo que alguns deles sobreviveram. Afinal, o que foi a invasão europeia para os Krenak e para todos os outros povos indígenas da América se não uma forma de fim do mundo? O fim do mundo como conheciam. O fim de milhões de vidas, inclusive por conta de gripes fulminantes.

"Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar ao século 21 ainda esperneando, reivindicando e desafinando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos", escreve Ailton.

No livro, o autor ainda lembra que vira e mexe o mundo acaba para certas pessoas. Cita, por exemplo, o rompimento da barragem do Fundão, em 2015, em Minas Gerais, e o apocalipse vivido pelas comunidades impactadas pelo crime que destruiu o rio Doce, então centro da vida (do mundo) de milhares de brasileiros.

Em novembro do ano passado, quando entrevistei a jornalista Eliane Brum por conta do lançamento de "Brasil: Construtor de Ruínas" (Arquipélago), ela também passou pela questão: "Viver numa das Amazônias, a do Médio Xingu, me deu uma outra compreensão da vida. Como convivo com povos cujos ancestrais já viveram o fim do mundo antes, caso dos indígenas, e com povos que acabaram de viver o fim do mundo de novo, caso dos indígenas e dos beiradeiros atingidos pela usina hidrelétrica de Belo Monte, tenho testemunhado como eles lutam. Nunca tinha visto ninguém lutar assim antes. Usam a alegria como 'potência de agir'. A alegria de estar junto e de compartilhar a vida, mesmo na catástrofe. Riem por desaforo diante dos déspotas do mundo".

Não me parece exagero afirmar que estamos presenciando o ponto final do mundo como conhecemos. Passado o vírus, contabilizaremos nossos mortos e estaremos diante de um cenário de profunda depressão, que talvez seja fatal para ainda mais pessoas. Nessa hora, é imprescindível escutarmos e levarmos muito a sério o relato e as ideias de pessoas que conhecem bem de perto o que é um fim de mundo.

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