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'Onde tinha casa, já não tem mais nada', diz testemunha do ciclone

'Onde tinha casa, já não tem mais nada', diz testemunha do ciclone

Os trabalhos de resgate das vítimas estão se intensificando agora que as chuvas geradas pelo ciclone começaram a diminuir

Da EFE

O deputado moçambicano Juliano Picardo, que , na região central de Moçambique, não estava em casa quando o ciclone Idai chegou na última quinta-feira (14) e, ao voltar no domingo (17), percebeu que na região onde havia residências, não restava mais nada.

Em conversa com a Agência Efe por telefone, Picardo contou que foi a Chimoio, uma cidade no interior de Moçambique, na semana passada. Como não conseguiu ligar para a família depois da passagem do ciclone, decidiu voltar a Beira, primeiro de carro e depois a pé.

"Era uma área residencial. Na quinta, quando fui para Chimoio, vi muitas casinhas tradicionais que a nossa comunidade constrói. No domingo não tinha absolutamente mais nada", disse o parlamentar.

Os trabalhos de resgate estão se intensificando agora que as chuvas geradas pelo ciclone começaram a diminuir, mas não a parar, e milhares de pessoas continuam isoladas em cima de telhados ou em copas de árvores, à espera de resgate.

Em Beira, de acordo com o deputado do partido opositor Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), os corpos se acumulam na entrada do necrotério, anexo ao Hospital Central, por conta da impossibilidade de enterrá-los, já que os cemitérios estão cobertos de água.

"As pessoas não levam mais ninguém para o necrotério. O chão está encharcado, não dá para realizar funerais. Estamos guardando os corpos em lugares que achamos seguros, sem água", completou o parlamentar.

Além disso, os números oficiais divulgados pelo governo de Moçambique, que indicam 202 mortos até o momento, não coincidem com a realidade, segundo ele.

"Não há números exatos, todos os dias aparecem corpos. O cenário é de muita tristeza", admitiu o legislador.

Na última parte do trajeto de volta para casa, Picardo ajudou algumas pessoas a descerem de árvores e resgatou corpos da enchente.

"A cidade de Beira precisa de muita solidariedade", apelou o deputado, que relatou que a cidade, de 500 mil habitantes, não tem luz, água potável ou combustível.

De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a cidade está 90% devastada e os danos em áreas rurais ou de acesso dificultado ainda precisam ser avaliados.

O Idai chegou no último dia 14 ao litoral de Moçambique e continuou na direção do leste do Zimbábue na sexta (15).

No Zimbábue, o ciclone deixou, por enquanto, 102 mortos e 217 desaparecidos, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), que acredita que esses números podem aumentar.