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O que é 'blackface' e por que é considerado tão ofensivo?

O que é 'blackface' e por que é considerado tão ofensivo?

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, pediu desculpas depois que foram divulgadas fotografias antigas dele usando maquiagem para deixar o rosto marrom ou preto. Por que esse comportamento é considerado racista?

Justin Trudeau e blackface

  • BBC NEWS BRASIL
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      O primeiro-ministro do Canadá pediu desculpas depois que uma foto tirada há 18 anos veio à tona. Nela, Trudeau, que é conhecido pelas posições progressistas, aparece vestido como Alladin, numa festa temática.

      O problema é que ele pintou rosto e braços para escurecer a pele, prática conhecida como blackface. Trudeau admitiu que a conduta é racista, mas disse que, na época da foto, não tinha consciência disso.

      A polêmica se agravou depois que outras imagens antigas foram divulgadas, mostrando o líder canadense com o rosto pintado de preto em pelo menos duas outras ocasiões.

      Mas por que o blackface é considerado racista?

      O blackface é uma prática que tem pelo menos 200 anos. Acredita-se que ela tenha se iniciado por volta de 1830 em Nova York.

      Mas não se trata apenas de pintar a pele de cor diferente.

      Era uma prática na qual pessoas negras eram ridicularizadas para o entretenimento de brancos. Estereótipos negativos vinham associados às piadas, principalmente nos Estados Unidos e na Europa.

      No século 19, atores brancos usavam tinta para pintar os rostos de preto em espetáculos humorísticos, se comportando de forma exagerada para ilustrar comportamentos que os brancos associavam aos negros. Também ridicularizavam os sotaques dos personagens que incorporavam nas peças.

      Isso surgiu numa época em que os negros nem eram autorizados a subir nos palcos e atuar, por causa da cor da pele.

      Mesmo no século 20, era muito raro atores negros receberem posição de destaque. Papéis que exigiam uma aparência africana ou asiática eram frequentemente desempenhados por atores brancos usando blackface, ou seja, com a pele tingida.

      A prática continuou em programas de TV e no teatro por boa parte do século 20. A BBC mesmo teve por 20 anos, entre 1958 e 1978, um programa que usava blackface.

      O show, que se chamava The Black and White Minstrel Show, era extremamente popular, com uma audiência que chegou a atingir 16 milhões de pessoas.

      O programa ganhou o prestigioso prêmio Golden Rose of Montreux, em 1961.

      Conforme movimentos antirracistas foram crescendo, o blackface foi sendo eliminado do entretenimento e, atualmente, é algo visto como vergonhoso e lamentável.

      Mas isso não impediu que a prática ainda fosse usada por algumas pessoas.

      O blackface é ofensivo porque prega estereótipos negativos sobre negros. Surgiu nos Estados Unidos para entreter audiências brancas às custas de um grupo minoritário que lutava por seus direitos civis após séculos de escravidão.

      "O blackface tem raízes no racismo, que está ligado ao medo de pessoas negras e à ridicularização delas", diz Kehinge Andrews, da Birmingham City University, no Reino Unido.

      "É um problema racial de longa data na Europa. Você percebe desde os tempos de Shakespeare a figura dos brancos escurecendo a pele."

      As interpretações feitas com uso de blackface em shows e programas populares eram normalmente imprecisas e profundamente ofensivas, mas muitos brancos enxergavam — e ainda enxergam — como uma forma aceitável de entretenimento.

      Esse gênero de comédia, no entanto, tem sido publicamente acusado de racismo há décadas. O movimento Campanha Contra a Discriminação Racial, do Reino Unido, enviou em 1967 uma petição contra o programa da BBC que usava atores com rostos pintados de preto.

      A BBC inicialmente acolheu os pedidos e os cantores chegaram a se apresentar sem maquiagem por um ano. Mas o programa voltou ao seu formato original e durou mais 10 anos.

      Neste ano, a cantora Katy Perry decidiu retirar dois sapatos de uma coleção de calçados da sua marca após várias pessoas reclamarem que o design era racista.

      Os críticos disseram que os saptos pareciam images de blackface, com o uso de couro preto, lábios vermelhos e olhos azuis.

      A cantora disse que ficou triste com o ocorrido e garantiu que nunca teve a intenção de ofender.

      Em dezembro de 2017, o jogador de futebol Antoine Griezmann foi criticado por pintar a pele e se vestir como um jogador negro de basquete.

      Griezmann inicialmente defendeu a sua decisão dizendo que era um tributo ao time de basquete Harlem Globetrotters. Mas, depois, retirou a fotografia da internet e pediu desculpas.

      Em maio de 2018, a modelo Gigi Hadid pediu desculpas depois de sair na capa de uma revista tão excessivamente bronzeada com o uso de maquiagem a ponto de ser acusada de praticar blackface.

      A Vogue Itália respondeu à crítica. "Nós entendemos que o resultado provocou debate entre nossos leitores e pedimos sinceras desculpas se causamos ofensas."

      Muitos acreditam que várias pessoas que praticaram blackface não tiveram a intenção de ofender ou de serem racistas. Mas os críticos dizem que o fato de desconhecer a dolorosa e vergonhosa história do blackface não pode ser usado como desculpa.

      "O uso do blackface é uma prática ultrapassada que raramente é vista nos dias de hoje, o que demonstra que a atitude do público evoluiu e que a representação cruel de pessoas negras deve ser considerada inaceitável", disse à BBC News Ben Holmann, integrante da organização não governamental Dê Cartão Vermelho ao Racismo.

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