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Falta de segurança e fake news são desafios de repórter em Hong Kong

Falta de segurança e fake news são desafios de repórter em Hong Kong

Em entrevista ao R7, repórter diz que profissionais da mídia sofrem hostilidade da polícia e de manifestantes. 'Falar do futuro até parece luxo'

Protestos em Hong Kong

Ana Luísa Vieira, do R7

Há mais de dois meses, o jornalista Damon Pang, de 36 anos, trabalha quase que diariamente no olho de um furacão. Ele é jornalista na Radio Television Hong Kong e cobre os — que é uma das regiões administrativas especiais da China.

Em entrevista ao , Pang diz que uma das principais dificuldades do dia a dia como repórter nas manifestações mais recentes é a falta de segurança. “A polícia tem lançado mão de força excessiva não somente contra os manifestantes, como em relação aos jornalistas. O uso indiscriminado de gás lacrimogêneo é um dos problemas”, aponta.

O repórter ainda lembra que, infelizmente, desde meados do mês de julho, os ativistas também se tornaram hostis em relação aos profissionais da imprensa. “Os manifestantes ficaram mais violentos e, durante os protestos, jogam tijolos e outros objetos que eventualmente nos atingem.”

Não à toa, Damon Pang cita o cansaço extremo como um dos principais problemas que vem enfrentando por causa do trabalho. “Temos feito muitas horas extras porque polícia e manifestantes se dirigem para locais diferentes e muito distantes um do outro. Além disso, há muitos rumores, materiais fabricados e imagens falsas circulando online, o que dificulta nosso trabalho de checagem.”

As manifestações começaram contra um projeto de lei de extradições proposto pelo governo, que teria permitido que determinados suspeitos em Hong Kong fossem extraditados para julgamento na China continental. O texto já foi arquivado pela líder , mas os protestos continuaram como um clamor mais abrangente por democracia no território.

Na última semana, os ativistas ocuparam o aeroporto local por dois dias consecutivos, provocando o atraso e o cancelamento de centenas de voos. O movimento terminou com um confronto entre manifestantes e policiais da tropa de choque, ao passo que cenas de violência entre os grupos inundaram as redes sociais.

“Eu penso que as pessoas não pararam de protestar porque não sentiram que sua voz foi ouvida. Elas querem que o projeto de lei de extradições seja formalmente cancelado, e não apenas arquivado. Também esperam que se investigue a brutalidade policial, que os manifestantes não sejam processados e que a democracia seja inteiramente instaurada”, explica o repórter.

Também nos últimos dias, imagens capturadas por satélite mostraram que agentes da Polícia Armada Popular da China realizaram exercícios em um estádio esportivo de Shenzhen, na fronteira com Hong Kong. As fotos geraram preocupação para a possibilidade de que Pequim estivesse considerando uma intervenção militar na região.

“É importante deixar claro, entretanto, que esses policiais vistos na fronteira não estão legalmente autorizados a integrar as forças da lei em Hong Kong porque temos o princípio de ‘um país, dois sistemas’”, aponta Damon Pang. A fórmula protege a soberania e a autonomia jurídica da região.

“Por isso, alguns críticos acreditam que as tropas chegaram como uma forma de ameaça aos manifestantes, e não porque foram efetivamente mobilizadas contra eles.”

O jornalista diz ao que cobriu também em Hong Kong os atos de 2014, chamados de “revolta dos guarda-chuvas” — em que os manifestantes exigiram, sem sucesso, o sufrágio universal e o fim do controle de Pequim sobre os candidatos ao Parlamento local.

“Mas em 2014 era muito diferente. Foi mais uma manifestação de desobediência social sem violência. Agora, me parece muito mais violento. Os grupos nos protestos atacam a polícia, se envolvem em brigas, jogam tijolos e têm até usado coquetéis molotov. Os agentes revidam e, nos últimos tempos, pararam de usar uniformes com números de identificação — o que basicamente faz com que se coloquem acima da lei”, avalia o repórter.

Para Damon Pang, os policiais agem atualmente com a certeza de que não sofrerão consequências por seus excessos. “Embora, como jornalistas, tenhamos de ser objetivos, é difícil não admitir que a polícia hoje esteja errada. Em algumas situações, é bastante claro que eles agiram ilegalmente.”

Dadas as circunstâncias, o repórter quase não consegue responder quando questionado quando suas expectativas para o futuro de Hong Kong — onde nasceu e foi criado.

“Se Pequim realmente enviar o Exército, se a polícia começar a disparar balas letais ou usar canhões de água contra os manifestantes, os jornalistas podem encarar situações muito mais perigosas. Desta forma, falar do futuro até parece, para mim, um luxo. Mas se houver um futuro para Hong Kong, espero que seja o de uma cidade com liberdade, democracia, igualdade, onde as pessoas possam viver com dignidade e direitos.”