Mundo

CIA era dona da maior empresa de criptografia do mundo, diz jornal

CIA era dona da maior empresa de criptografia do mundo, diz jornal
A CIA e a BND, da Alemanha, foram sócias ocultas da Crypto durante décadas

A CIA e a BND, da Alemanha, foram sócias ocultas da Crypto durante décadas

Alexandra Wey / EPA - EFE - 13.2.2020

O maior golpe de espionagem do século passado. É com essas palavras que o Washington Post define um esquema que, durante quase seis décadas, deu à CIA e à BND, a agência de inteligência alemã, acesso aos códigos de criptografia das comunicações internas e externas de mais de 120 países, inimigos e aliados.

Documentos da CIA e da BND obtidos pelo Post, em parceria com o canal alemão ZDF. mostram que as duas agências de inteligência foram sócias ocultas da maior empresa de criptografia do mundo, com clientes que iam de bancos a governos de todos os espectros políticos.

Da década de 1950 até 2018, quando foi vendida e liquidada, a Crypto AG, sediada na Suíça, forneceu para mais de 120 países, incluindo o Brasil, equipamentos programados para gerar códigos que eram facilmente quebrados pelos agentes norte-americanos e da Alemanha Ocidental.

Ou seja, tudo que os clientes queriam manter em segredo, criando um código especial para "embaralhar" o texto de documentos com informações estratégicas a salvo da curiosidade alheia, podia ser lido por espiões dos dois países, que conseguiam traduzir em segundos mensagens que normalmente levariam horas para serem decifradas.

Dessa forma, os EUA tiveram acesso a conversas do regime iraniano durante a Revolução de 1979 e a crise dos reféns norte-americanos, espionaram países sul-americanos durante as ditaduras dos anos 1970 e forneceram informações militares cruciais sobre as tropas argentinas para o Reino Unido durante a Guerra das Malvinas, por exemplo.

Como tudo começou

M-209 teve 140 mil unidades produzidas nos EUA

M-209 teve 140 mil unidades produzidas nos EUA

Wikimedia Commons

Em 1940, o inventor sueco Boris Hagelin fugiu de seu país para os EUA, após a invasão da Noruega por tropas nazistas Ele levou na bagagem sua principal invenção, a M-209, uma caixa de metal com uma alavanca e vários discos. Cada letra que compunha uma mensagem era trocada quando selecionada no disco metálico no momento que era passada para o papel.

Com apenas seis linhas de códigos diferentes, era uma máquina simples, mas compacta. Durante a guerra, os EUA produziram mais de 140 mil máquinas M-209, que foram usadas nos fronts de combate tanto da Europa quanto da Ásia, para facilitar as mensagens para orientar a movimentação das tropas.

Após o fim do conflito, Hagelin se mudou para Suíça, onde estabeleceu uma nova fábrica para a Crypto. Dinheiro não era problema: seu contrato com o governo dos EUA rendeu US$ 8,6 milhões, uma fortuna para a época. Em valores atuais, seria o equivalente a US$ 157,8 milhões (cerca de R$ 684 milhões).

Na época, os EUA não tinham meios para decodificar as comunicações das potências comunistas, como União Soviética e China. Temendo que outros países ficassem inacessíveis, a CIA fez um acordo com Hagelin. Ele venderia seus modelos mais sofisticados apenas para países que fossem aprovados pelos EUA. Quem estivesse fora da lista receberia modelos mais antigos e fáceis de decodificar.

Sabotagem interna

Em meados da década de 1960, quando os primeiros chips começaram a ser usados em codificação, a CIA viu a oportunidade de ampliar a espionagem. A Crypto lançou uma máquina cujo algoritmo foi inteiramente escrito nos EUA pela Agência de Segurança Nacional (NSA), sem que os próprios funcionários soubessem.

Boris Hagelin em 1940

Boris Hagelin em 1940

Wikimedia Commons

"Imagine um cenário em que o governo norte-americano convença um fabricante estrangeiro a sabotar seu próprio equipamento em seu favor", diz o documento da CIA citado pelo Post. "Isso é um admirável mundo novo", escreveu o agente.

No início dos anos 1970, com Hagelin perto dos 80 anos e sem herdeiro após a morte de seu filho em um acidente de trânsito, a Crypto foi vendida secretamente para a CIA e a BND, através de uma empresa de fachada, sediada em Liechstenstein.

Foi estabelecida uma diretoria, com executivos legítimos, para tocar a companhia. Apenas um deles sabia que a tecnologia, que agora a Crypto vendia para o mundo todo, era montada para favorecer a espionagem. Os negócios prosperaram e as duas agências de espionagem repartiam os lucros anualmente.

Descobertas e riscos

No relatório obtido pelo Post, os agentes descrevem como, na virada da década de 1980, a decodificação de mensagens levou à descoberta de que Billy Carter, irmão do então presidente Jimmy Carter, era pago pelo ditador Muammar Gadaffi, da Líbia, para representar interesses de seu país nos EUA.

Em 1986, o presidente Ronald Reagan quase expôs a parceria, afirmando em público que seu país tinha informações precisas sobre o envolvimento da Líbia em uma explosão que aconteceu em uma casa noturna na parte ocidental de Berlim, resultando na morte de dois soldados norte-americanos e uma mulher turca.

A parceria entre CIA e BND durou até o início da década de 1990, quando um dos principais vendedores da Crypto no mundo foi preso no Irã. Ele não sabia sobre os verdadeiros donos da empresa e foi solto após o pagamento de um resgate de US$ 1 milhão. Após a reunificação da Alemanha, os sócios europeus da firma consideraram a união um risco e venderam sua parte para os norte-americanos.

Durante os mais de 20 anos seguintes, a CIA comandou a empresa, mas uma mudança no mercado a tornou obsoleta: a criptografia passou a ser feita em softwares, e ela produzia hardware. Com isso, em 2018, ela foi finalmente vendida, para uma empresa de fachada em Liechtenstein e outra da Suíça, e fechada.