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Argentina: Cristina Kirchner se torna principal personagem das eleições

Argentina: Cristina Kirchner se torna principal personagem das eleições

Julgada por corrupção e suborno em obras superfaturadas, ex-presidente do país perdeu apoio da base eleitoral e pode causar divisão no peronismo

Giovanna Orlando, do R7

Enquanto a Argentina passa por uma intensa crise política e econômica, aparece como uma das personagens fundamentais para as eleições deste ano, que acontecem em outubro. , a ex-presidente pretende voltar ao poder, mas como vice-presidente.

O atual presidente, Mauricio Macri, tenta contornar a como pode. Segundo Guilherme Frizzera, mestre em integração da América Latina pela Universidade de São Paulo e doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, as estratégias do mandatário decepcionaram a população.

“O Macri foi eleito em uma plataforma liberal, ia contra o kirchnerismo e o nacionalismo de centro esquerda. Ele foi eleito com a esperança de contornar a crise, a inflação alta, o desemprego e os preços disparando. Ele tinha prometido medidas liberais e não cumpriu”, explica.

Com um cenário econômico desanimador, a possibilidade do retorno de Cristina faz os argentinos lembrarem do tempo de inclusão social, preços baixos e estabilidade do Kirchnerismo.

Antes apontada como um dos principais nomes na disputa pela presidência, a atual senadora anunciou no sábado (18) que vai assumir a vice-presidência na chapa liderada por Alberto Fernández. Segundo Frizzera, a decisão de Cristina pode ter dois motivos.

“Primeiro, ela está enfrentando um julgamento e é ligada a corrupção. Ela não consegue se distanciar dessa imagem de corrupta, principalmente na base eleitoral dela, que não a vê mais como um símbolo de retidão. E, consequentemente, ela não conseguiu apoio total do partido, e ela quer demonstrar que teria um papel menor durante o governo”, analisa.

Kirchner está sendo julgada por esquema de corrupção e suborno por obras superfaturadas na província de Santa Cruz, sua base eleitoral. Além deste caso, Cristina também está envolvida em outros 11 processos diferentes. Mesmo se condenada, a senadora tem foro privilegiado e só pode ser presa caso o Senado argentino libere, o que não é um cenário provável, segundo o especialista.

Mas, mesmo antes de uma eventual condenação, o julgamento de Cristina pode gerar uma divisão dentro do peronismo e a eleição não terá apenas duas candidaturas para a presidência. “Isso pode ser um problema que beneficie o Macri”, diz Frizzera.

E mesmo se ela for considerada culpada durante o processo, que vai passar o período eleitoral e pode ser concluído apenas em meados de 2020, Cristina pode responder a condenação apenas quando deixar a vice-presidência da Argentina, caso a chapa vença as eleições.

O peronismo remete ao período em que Juan Domingos Perón foi presidente da Argentina, na década de 1930. Focado em um projeto político nacionalista, desenvolvimentista e com atuação forte do estado na economia, o país viveu a era de ouro e conseguiu se desenvolver, explica Frizzera.

Perón foi considerado o pai dos pobres, e o sucesso e popularidade do presidente fez com que outros líderes eleitos depois dele tentassem resgatar a memória da grandeza e crescimento da época.

Atualmente, o peronismo inclui vários partidos políticos, que costumam criar uma coligação durante as eleições, com exceção dos partidos mais radicais. Com os escândalos e problemas políticos de Cristina, grupos mais moderados podem entrar na corrida presidencial.

“A Cristina tem a popularidade ruim e apostar na candidatura dela poderia enfraquecer o partido e o peronismo”, conta o especialista.

No poder por 12 anos, os Kirchner contavam com o apoio popular. Néstor Kirchner assumiu a presidência do país em um momento de crise, em que diversos presidentes passaram em um curto espaço de tempo. Ele conseguiu reorganizar a política e a economia do país, que passou por um tempo de estabilidade.

Com a morte de Néstor, Cristina assume. No segundo mandato, a ex-presidente começa a levar o governo mais à esquerda, e tomou algumas decisões impopulares, como estatizar alguns setores da economia.

“O kirchnerismo começa a cair, tem uma oposição às medidas que estavam sendo tomadas e começam a surgir algumas dúvidas sobre corrupção, suborno e a uma aura de totalitarismo nos Kirchner”, completa Frizzera.