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15 mortos em protestos | Vídeos mostram humilhações, torturas e tiros atribuídos a polícia no Chile

15 mortos em protestos | Vídeos mostram humilhações, torturas e tiros atribuídos a polícia no Chile

É noite na rua. Militares chutam duas pessoas deitadas no chão e gritam: "Vocês têm dez segundos para correr". As pessoas se levantam, se apressam, mas segundos depois, apesar da ordem obedecida, os militares disparam — aparentemente sem saber ou sem se importar que estavam sendo gravados.

Essa é uma das cenas que circulam no Twitter no Chile, que há seis dias vive uma onda de protestos que já deixou ao menos 11 mortos, na contagem até ontem à noite.

Nas redes sociais, usuários denunciam supostos abusos por parte dos "Carabineros de Chile", espécie de polícia militar do país, e do Exército. Os chilenos acusam as forças de segurança de torturar e humilhar manifestantes ou pedestres que desobedecem ao toque de recolher imposto pelo Exército, que no último sábado, pela primeira vez desde o fim da ditadura, foi convocado para patrulhar as ruas de Santiago.

Manifestante mostra ferimento de bala de borracha para militar em Valparaíso - Javier Torres / AFP
Manifestante mostra ferimento de bala de borracha para militar em Valparaíso
Imagem: Javier Torres / AFP
O volume e a repercussão dos vídeos fez a hashtag #EstoPasaEnChile (Isso acontece no Chile) e #PiñeraDictador chegarem ao topo da lista de termos mais compartilhados no Twitter no país.

Das janelas dos apartamentos, celulares registram tiros disparados por militares, perseguições a pessoas desarmadas e cenas de humilhação. Em uma delas, policiais obrigam um jovem, à noite na rua, a fazer flexões de braço, abdominais e agachamentos.

Não é possível saber com precisão a data de produção das imagens. Pelos uniformes e pelo sotaque nos vídeos, pode-se deduzir que as cenas são no Chile. Pelo contexto, é razoável acreditar que as imagens são de agora.

O UOL encaminhou alguns dos vídeos ao Exército do Chile e pediu que comentasse. A assessoria de imprensa informou que analisa as imagens antes de se manifestar.

Mídia preocupada com saques

Um perfil organizado por um grupo de amigos, @piensaprensa, faz curadoria e divulgação dos vídeos e virou referência no país.

O editor-chefe, Mikal, diz ao UOL que nos três últimos dias as contas no Twitter, Facebook e Instagram dobraram o número de seguidores, apesar de ser obrigado a abrir perfis novos porque os servidores bloqueiam seus conteúdos considerados inapropriados — como imagens de agressões físicas.

Mikal diz que ele e os colegas não são jornalistas, mas paramédicos, artesãos ou porteiros que querem denunciar ao mundo o que está acontecendo no Chile.

Há vídeos também mostrando multidões nas portas dos principais canais de televisão no Chile. Eles reclamam que as mídias do país estão mais preocupadas em contar os saques a lojas e o desabastecimento dos mercados do que a violência policial e o significado dos protestos.

Mikal afirmou ter ainda 3.000 vídeos para assistir antes de publicar, com denúncias de violações dos direitos humanos por parte da polícia e o Exército.

Os casos mais graves, ele diz, são sequestros por parte de oficiais não identificados em carros particulares e o abandono de baleados por parte das autoridades.

"Ontem estávamos trabalhando às 3h da manhã e passou um helicóptero voando baixo, senti dor de estômago. Estávamos revisando as imagens de uma mulher baleada no crânio por policiais e abandonada na rua, estão baleando os nossos compatriotas, quero chorar e não posso, porque devo trabalhar", diz com a voz engasgada

Mikal afirmou estar em contato instituições de Direitos Humanos para tomar precauções necessárias para não difundir fake news.

Piñera se justifica

O presidente Sebastian Piñera justificou ter decretado toque de recolher e colocado o Exército nas ruas falando que o país está "em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém e que está disposto a usar a violência e delinquência sem nenhum limite".

Os protestos começaram após anúncio de aumento da passagem do transporte público em Santiago, mas continuaram depois da anulação da medida.

O governo chileno decretou em 11 das 16 províncias estado de emergência, que pode durar até 15 dias e limita os direitos de reunião e circulação.

Ontem, mais uma vez, foi decretado toque de recolher em Santiago (das 22h às 6h) e em regiões importantes como Valparaíso e Concepción. Quem desobedecer pode ser preso.

Na região metropolitana de Santiago, a medida não era decretada desde 1986, na ditadura de Augusto Pinochet.