Geral

Solidariedade | De livros a kits de brincar: o que vai nas cestas básicas doadas nas periferias de SP

Solidariedade | De livros a kits de brincar: o que vai nas cestas básicas doadas nas periferias de SP

A Cesta Básica de Alimentos brotou em abril de 1938, período Getúlio Vargas, regulamentando uma lei de dois anos antes. A ideia de que, além de um salário mínimo, todas e todos tivessem assegurado o direito a um conjunto de alimentos básicos oferecidos pelo empregador. Tantas décadas depois, um outro tempo, outra ideia do que é trabalho, inclusive, do que é alimentação, em especial, e ela ainda povoa o vocabulário e o cotidiano do trabalhador e trabalhadora brasileira.

Assim que a COVID-19 se espalhou pelo país, nasceram diversos movimentos para assegurar que famílias inteiras recebessem cestas e tivessem o seu direito a se alimentar garantido em um momento ainda mais delicado e urgente da vida do país. Me encantou que, em meio a tantas mobilizações, vários grupos tenham ressignificado a cesta, considerando novos itens como essencial para se viver o mundo hoje: livros, informação, mil jeitos de brincar com seu filho ou filha em casa, seguros.

O Nutrição para Imaginação, por exemplo. A iniciativa brotou da contadora de histórias Renata Laurentino angustiada em casa, com a Lina, pensando que o isolamento social havia tirado dela o bem mais precioso: ir para a rua conversar e brincar com os sonhos e as fantasias das pessoas. Passava dia todo construindo brinquedos e brincadeiras com a filha, mas pensando como as outras famílias estavam passando pela mesma situação. Aquelas que não sabiam as brincadeiras que ela sabia, ou tinham os materiais que tinha em casa. Daí veio uma postagem nas redes sociais pedindo doações de materiais e brinquedos, isso reuniu um grupo nos comentários, este grupo foi conversando ideias, até que nasceu o projeto.

Conheça mais sobre o trabalho do Nutrição para a Imaginação clicando aqui.

Distribuídos junto com cestas básicas que estão doadas pela Companhia Faroeste, na região da Luz, centro de São Paulo, o Nutrição para Imaginação é um kit com caderno de atividades, materiais de pintar, desenhar, colorir, montar e, até plantinhas para serem cultivadas dentro de casa. A ideia, contou a Renata, é estimular e apoiar as famílias no desafio de ter as crianças seguras dentro de casa, criando um ambiente em que o brincar não seja sobre o lugar, mas sobre um momento.

"O que a gente está fazendo é potencializar este brincar que já está presente, essa coisa que já está acontecendo nas crianças. Não estamos as salvando. No máximo, convidando a família para estar junto, construindo um ambiente favorável para isso", me explicou.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Com apoio de pessoas físicas e, mais recentemente de um instituto, o Nutrição para a Imaginação distribuiu cerca de 500 kits para famílias da Luz e da Brasilândia, periferia da zona norte de São Paulo. Mais 445 estão quase prontos para caírem nas mãos certas. Para inspirar e facilitar a replicação da ideia em outros cantos do país, a iniciativa disponibilizou gratuitamente um guia com ideias, referencias e todos os materiais criados.

Costurando tudo, Renata enxergou a cesta básica como uma plataforma para fazer chegar às famílias alimentos que não sejam apenas para a corpo, mas para o espírito também, para a imaginação, como o próprio nome da iniciativa já diz. "Eu não sei como, mas talvez precisemos, de alguma maneira, revisitar o conceito de cesta básica, sabe", explicou Emi Tanaka, que também faz parte do projeto.

Divulgação
Imagem: Divulgação
Do outro lado da cidade, nas periferias da zona sul, é um jornal comunitária que chega às famílias junto com o arroz, o feijão tão preciso agora. Criado em 2018, o Embarque no Direito é uma publicação impressa liderada por jovens comunicadoras da região do Campo Limpo e Capão Redondo que busca traduzir direitos para quem está saindo de casa nas primeiras horas da manhã para o trabalho. Este jornal, que é entregue gratuitamente nos terminais e pontos de ônibus, encontrou na cesta básica uma maneira de continuar conversando com suas leitoras e leitores.

Conheça mais sobre o trabalho do Embarque no Direito clicando aqui.

Divulgação
Imagem: Divulgação
Por isso, me contou a Franciele Cesar Meirelles, elas mapearam organizações sociais que já faziam atendimento emergencial de famílias e, em 25 delas, passaram a colocar a mais nova edição sobre Direito ao Trabalho dentro da embalagem da cesta básica. Mais de 5 mil jornais estão chegando na mão dos moradores e moradoras da região.

"Nós pensamos diversas maneiras de continuar fazer o jornal chegando na mão das pessoas", conta Francielle, "e o que percebemos é que maneira mais segura para todo mundo era fazer o jornal ir junto com a cesta. Tudo com muito cuidado e todas as medidas de segurança necessárias".

A edição atual, a décima segunda, é sobre direito ao trabalho e, para a jovem comunicadora, é essencial que se consiga falar sobre este tema justamente agora, já que um dos grandes desafios pós COVID-19 nas periferias será este. "Muita gente já está perdendo emprego ou tendo seus salários reduzidos. Precisamos falar sobre o trabalho como direito de quem mora aqui", finalizou.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Do Grajaú, ainda periferia, ainda zona sul, mas do outro lado da Represa do Guarapiranga, o último exemplo de como as cestas básicas foram ressignificadas em meio a pandemia vem do Pagode da 27. Criado há 15 anos, o grupo nasceu de uma roda de samba realizada aos domingos na Rua Manoel Guilherme dos Reis, mais conhecida como Rua 27. Daí o nome.

"A preocupação social está presente nas nossas letras, ocupou o que a gente cria artisticamente hoje. Eu sinto que ajudamos a construir um orgulho de a pessoa ser daqui, de ser morador ou moradora do Grajaú", explica Flavio Sarmento.

Como todos os movimentos culturais que brotam nas margens, o grupo caminha arte e transformação social, entendendo tudo como uma coisa só, e não poderia ser diferente neste momento. Flavio explicou que o grupo tem articulado doações de alimentos e, junto, entregue livros para adultos e crianças, como maneira de estimular a leitura no bairro, mas também ajudar as pessoas a passarem por este momento tão difícil.

Conheça mais sobre o trabalho do Pagode da 27 clicando aqui.