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Sandra Caselato | Uma pequena tensão me acompanha

Sandra Caselato | Uma pequena tensão me acompanha

Nesses dias de coronavírus, pandemia, quarentena, tem me acompanhado uma pequena tensão do lado esquerdo, uma dorzinha que fica lá incomodando, entre o ombro e o pescoço. Não chega a ser um torcicolo, não impede meus movimentos, mas me atrapalha. Se presto mais atenção, percebo que a tensão irradia levemente para minha mão e para a cabeça, para a têmpora esquerda e atrás do olho. Quero que ela desapareça, não quero esse estorvo. Porém, quanto mais eu tento me livrar, mais a contração cresce. Giro o pescoço, faço massagem, movimento meu corpo, procuro relaxar. Quanto mais eu me esforço, mais a dor aumenta. O lugarzinho continua tenso, duro, imóvel, petrificado. Parece uma pedra, dura e fria.

Decido, então, mergulhar nesta imagem empedrada: me torno essa pedra... Sinto meu corpo todo tenso, preso, rígido, como se quisesse segurar algo, me agarrar a não sei o quê. Continuo tentando sentir como é ser essa pedra, rígida, fria, imóvel... Sinto meu corpo pesado, pesado, pesado... Sento no chão, me sinto ainda mais pesada... Deito no chão... Começo a relaxar... Para minha surpresa, percebo que a pedra, na verdade, não faz esforço nenhum... Não existe tensão... Me sinto totalmente relaxada, imóvel, estável, em contato com a segurança da terra... Sinto uma enorme tranquilidade interna, muita serenidade e calma... Uma qualidade de presença equilibrada, harmoniosa e centrada, em equilíbrio e constância.

De repente, me vejo sendo esta pedra no fundo de um rio... Sinto as águas agitadas e caudalosas passando sobre mim... Sinto a água na minha pele, na minha superfície, mas ela não me abala, não afeta meu estado de permanência e imperturbabilidade... Mantenho este estado de firmeza e tranquilidade interna enquanto ao mesmo tempo aprecio as águas passarem. Tenho consciência do todo: da pedra, das águas e do rio. É uma sensação maravilhosa!

Quero me lembrar desta imagem no meu dia a dia. Lembrar que sou também a pedra no fundo do rio, quando me percebo em pensamentos caudalosos e agitados, com sentimentos de ansiedade e tensão. Sou o rio e sou também a pedra no fundo do rio.

Me levanto e já não tenho mais a tensão no pescoço.