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Sakamoto | Capitão Bolsonaro perde batalha e terceiriza culpa

Sakamoto | Capitão Bolsonaro perde batalha e terceiriza culpa

Impressiona a covardia do presidente da República diante de sua derrota na Batalha das 100 mil Mortes por covid-19. O termo é forte, mas foi ele quem o trouxe para o debate público quando o usou para designar os brasileiros que, atendendo o alerta de médicos e cientistas, ficaram em casa para proteger a si mesmo e aos outros.

Neste sábado (8), quando essa montanha de corpos foi oficialmente registrada, ele se negou a falar sobre o que passou, como se um presidente da República não tivesse nada a explicar sobre a mais importante guerra travada em território brasileiro de nosso tempo. Ainda mais um presidente que age, desde o começo, como se estivesse liderando a invasão inimiga. Se tivesse sido um militar, isso seria vergonhoso.

Em uma democracia, haveria uma coletiva à imprensa em que o próprio governante responderia às perguntas, defendendo seu plano com argumentos racionais e sem ataques rasteiros. Por aqui, temos déficit de racionalidade, de planejamento, de democracia.

De resto, ele gastou mais espaço das postagens criticando o lockdown, brigando com a cobertura da TV Globo e defendendo a hidroxicloroquina do que fornecendo informações úteis para a população sobre o que podemos esperar de agora em diante. De forma cínica, disse que "desinformação mata".

Ao longo do sábado, milícias digitais do presidente tentaram transferir a responsabilidade pelas mortes a prefeitos e governadores, mentindo novamente sobre uma decisão do Supremo Tribunal Federal que teria tirado de Bolsonaro o comando político da crise. Na verdade, o disse que Estados e municípios também devem atuar na tomada de decisões, não que o governo federal não seja responsável.

Além disso, a corte não disse que Bolsonaro deveria se furtar de liderar o país na articulação de um plano de enfrentamento ao problema que envolvesse diferentes atores da federação e os Três Poderes. Tampouco afirmou que ele poderia atrasar os repasses de recursos para o combate à pandemia, como identificou o Tribunal de Contas da União (TCU). Ou que ele poderia deixar o vírus entrar livremente através de aeroportos internacionais abertos, enquanto o mundo fechava fronteiras.

Bolsonaro preferiu menosprezar o inimigo e, à medida que o Brasil ia perdendo terreno para o coronavírus, fechou-se em uma narrativa negacionista. Forçou os trabalhadores a voltarem ao serviço de forma a reduzir a depressão econômica da pandemia, de olho na viabilidade de seu governo e em sua reeleição, arriscando vidas. E começou a fazer propaganda de um remédio (com tanta eficácia quanto beber água) cujos efeitos colaterais também trazem óbitos que, mais tarde, entrarão em seu currículo.

O Brasil transformou a morte em massa em rotina. Tanto que a frase do presidente "a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo" tem sido repetida por muitos, de empresários a motoristas de táxis, na normalização do morticínio.

Espero que ele sinta orgulho disso, pois será lembrado como o seu legado.