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Rodrigo Ratier | Olho vivo a 'metodologias ativas'

Rodrigo Ratier | Olho vivo a 'metodologias ativas'

Espaço maker, sala de aula invertida, aprendizagem por projetos (ou por problemas), ensino híbrido, design thinking. A lista das chamadas "metodologias ativas" é grande e vai crescer. Quem está procurando escola já deve ter identificado a tendência: essas palavrinhas surgem como a grande novidade do mercado de educação. Modismo ou revolução?

Um pouco de cada. Para ser mais exato, muito de modismo e um tiquinho assim de revolução. Não significa que as novidades sejam ruins. Mas é preciso ficar atento às falsas promessas.

Começando pelo começo: metodologias ativas partem da ideia de que o centro do processo de ensino e aprendizagem é o aluno. E que a melhor forma de aprender é fazer com que crianças e jovens estejam em ação. O que quer dizer: desafiados intelectualmente a resolver problemas que tenham a ver com os conteúdos que se quer ensinar.

"Conceitualmente, isso é muito bom. A ideia de um aluno passivo e recebendo um ensino padronizado do professor respondia às necessidades do século passado. Não responde mais", afirma Miguel Thompson, educador e diretor acadêmico da Fundação Santillana. "Mas é sempre bom lembrar que metodologias ativas não são uma novidade. E que muito do que vemos por aí não desafia, de verdade, os alunos".

Miguel fala com autoridade: por 5 anos, foi diretor executivo do Instituto Singularidades, uma das mais inovadoras instituições de formação de professores do Brasil. Para ele, as metodologias ativas acertam ao incentivar que o aluno seja protagonista da construção de conhecimento. Mas reforça: trata-se de uma concepção milenar. "Dá para buscar as origens dessa ideia de educação em Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), grande pensador da investigação. Depois Kant (1724-1804) e Piaget (1896-1980) com o construtivismo e Vygotsky (1896-1934) com o sociointeracionismo ajudaram a explicar como ocorre essa aprendizagem e em quais condições". Robustecida por essas referências, ganhou corpo a ideia de que educação de verdade precisa pôr os alunos para trabalhar, física e mentalmente.

Daí que boa parte das atividades hoje consideradas tradicionais podem ser entendidas como metodologias ativas. Num estudo do meio, jovens são levados a pesquisar fauna e flora. Ao trabalhar com sucata, crianças criam novos usos para objetos que seriam descartados. Quando se reúnem em roda na sala, concebem argumentos para debater. E assim por diante. "É um equívoco achar que a pedagogia ativa depende, necessariamente, da tecnologia", completa Miguel.

A presença de um espaço vistoso também não é um bom critério de avaliação. Quem acompanha congressos de educação sabe que há empresas especializadas em pedagogias ativas do tipo plug and play. A comercialização de espaços makers é um exemplo: as empresas instalam laboratório, impressora 3D e – aí que mora o perigo – fornecem também apostilas padronizadas com o que deve ser ensinado – e como deve ser ensinado.

"É o que mais se vê por aí. Isso contraria o próprio espírito maker", diz Miguel. Como a metodologia ativa exige um problema a ser resolvido, é muito difícil conceber uma tarefa que faça sentido e que seja significativa para classes e classes em série. Para que os alunos aprendam de verdade, é preciso que cada um se sinta desafiado. "Geralmente isso exige um trabalho de contextualização e adaptação às turmas, às vezes a cada indivíduo, que só o professor ou professora que conhece bem seus alunos consegue fazer", explica.

"O problema é quando a metodologia ativa vira mercadoria e passa a ser produzida em escala. Não funciona", afirma. "Esses modelos exigem uma concepção artesã, não comportam a mera reprodução de um protocolo de instruções. O professor sabe onde a investigação dos alunos começa, mas em cada turma vai terminar de um jeito. E tudo bem, pois não estamos num processo de comando e controle", afirma.

O olhar sobre o erro também precisa ser diferente: quando uma experiência dá errado, quando uma montagem não funciona, quando um problema não é resolvido… é justamente aí que se aprende. "Quando aparece o erro é que o aluno pensa. Nesse momento de impasse, ele ou ela se pergunta: Por quê? O que pode ter dado errado? Pulamos alguma fase, esquecemos de algum detalhe? É uma etapa muito significativa de olhar para o conteúdo envolvido na resolução do desafio", explica.

Como você deve estar antecipando, são poucas as escolas que abordam, de verdade, as metodologias ativas nesse nível de complexidade. E aí as novidades de nome pomposo que abrem este texto acabam sendo apenas estratégias de marketing para fisgar novos alunos. Para separar os trabalhos sérios dos menos comprometidos, vale a pena ver se a concepção de aluno como centro da aprendizagem permeia todo o projeto pedagógico da escola – e não apenas os das aulas "especiais".

Perguntar sobre o papel dos professores também ajuda, diz Miguel. Mais do que ser "o cara" num púlpito diante da classe, ele é o profissional que passa segurança aos alunos em seus desafios. "Bons professores fazem isso com uma combinação de curadoria e rigor acadêmico. Curadoria para orientar sobre as probabilidades a partir das hipóteses dos alunos. E rigor para exigir trabalhos de boa qualidade sobre qualquer tema. Tudo isso sem descuidar do conhecimento sobre a área em que se leciona. Isso continua sendo a base do ensino consistente", finaliza.