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Reinaldo Azevedo | Caso Marielle: Moro atende a pressão do chefe

Reinaldo Azevedo | Caso Marielle: Moro atende a pressão do chefe

O ministro da Justiça, Sergio Moro, defendeu a federalização da investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes. É mesmo? Atendendo a que propósito? Seu objetivo é reforçar o trabalho de apuração com recursos materiais e humanos ou responder a uma questão que hoje é de natureza política e opõe seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, e o governador do Rio, Wilson Witzel?

O pedido, equivocado, já havia sido feito por Raquel Dodge, ex-procuradora-geral da República. A decisão sobre a federalização ou não será da 3ª Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), composta por 10 ministros. O presidente, Nefi Cordeiro, não vota. Vamos lá. Federalizar por quê?

A investigação de crimes dessa natureza é de competência da Polícia Civil. Há erros e imperícias evidentes cometidos por esta e pelo Ministério Público do Estado. Eu mesmo defendo que todos os promotores do caso sejam substituídos. Mas o fato é que os executores da vereadora e do motorista estão presos. O que se busca agora é chegar aos mandantes. Moro não está falando como ministro da Justiça, mas como advogado de Bolsonaro, coisa que ele não é. E o faz com o seu habitual complexo de Deus.

Em entrevista à rádio CBN, afirmou o seguinte:
"Esse é um caso que tem que ser investigado com neutralidade, dedicação e sem politização. Essa questão do envolvimento do nome do presidente nisso aí, para mim, é um total disparate. Uma coisa que não faz o menor sentido. O que se constatou foi um possível envolvimento fraudulento do nome do presidente".

Moro pregar "neutralidade, dedicação e não-politização" de uma investigação depois de tudo o que se sabe sobre suas conversas com os procuradores da Lava Jato para direcionar a operação — chegou a oferecer a Deltan Dallagnol uma suposta testemunha contra Lula — é peça de humor involuntário. Ele pode classificar de "um disparate" o que chamou de "envolvimento do nome do presidente", mas isso é o inquérito que vai dizer. Não se federaliza uma investigação apenas porque o chefe do ministro da Justiça está descontente com o seu andamento.

Os dois depoimentos do porteiro que afirmou que Élcio Queiroz, um dos assassinos, pedira para ir à casa de Bolsonaro naquele fatídico 14 de março de 2018 e que a entrada havia sido autorizada por alguém com a voz do "Seu Jair" já tinham sido refutados pelo próprio Ministério Público Estadual.

O presidente esbravejou contra esse vazamento, mas se calou quando vazou o depoimento do mesmo porteiro à Polícia Federal desmentindo os concedidos à Polícia Civil e afirmando ter se equivocado ao anotar no livro que Queiroz pedira para ir à Casa 58 — a de Bolsonaro. A propósito: o ministro Moro considera esse segundo vazamento um exemplo de "neutralidade, dedicação e não-politização"?

Moro disse mais na entrevista:
"Vendo esse novo episódio, em que se busca politizar a investigação indevidamente, a minha avaliação é que o melhor caminho para que possamos ter uma investigação exitosa é a federalização".

A que novo episódio ele se refere? Circulam informações de que relações tensas entre o vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, e Marielle estariam no radar da Polícia. Mas nada mais se sabe a respeito. Vale dizer: em havendo alguma linha de apuração nesse sentido, ignora-se o conteúdo porque as investigações estão sob sigilo.

Que se note: Élcio Queiroz e Ronnie Lessa, o que disparou contra Marielle e Anderson, são membros do chamado "Escritório do Crime", uma espécie de central das milícias, ao qual pertence também Adriano da Nóbrega, que está foragido. Nóbrega é um dos milicianos que já foram homenageados por Flávio Bolsonaro quando deputado estadual. Foi apresentado ao Zero Um por Fabrício Queiroz, aquele investigado por comandar um possível esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado. Queiroz chegou a contratar a mãe e a mulher de Nóbrega para o gabinete.

Que milicianos e os Bolsonaros andaram transitando pelos mesmos lugares, isso é um dado da história. Daí a se afirmar que pai e filhos estejam envolvidos com a morte de Marielle e Anderson vai uma grande distância. Ainda que fosse verdadeira a acusação do presidente — segundo quem o governador Wilson Witzel está manipulando o inquérito para incriminar a sua família —, parece evidente que, sem fatos, o esforço seria inútil.

Assim, essa conversa sobre "federalização da investigação", e isto fica evidente na fala do próprio Moro, atende a uma demanda que é de natureza política. Como político é o inquérito aberto pela PF, por interferência de Moro, para investigar o tal porteiro. Que se saiba, é inédito na história que uma pessoa que ainda é testemunha num inquérito da Polícia Civil figure como investigada em outro, da Polícia Federal.

É verdade! A investigação do caso Marielle não pode ser politizada. Por isso mesmo, não pode ser federalizada. Afinal, em defesa da tese, resta claro que Moro falou como um político, subordinado a outro político.