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Reinaldo Azevedo | Bolsonaro está com medo

Reinaldo Azevedo | Bolsonaro está com medo

Jair Bolsonaro e seus auxiliares estão se pelando de medo. Não esperavam enfrentar mobilizações de rua tão cedo. E vão. Agora ou quando vier o relaxamento. O que quer que aconteça neste domingo não conta, como está claro, com a mobilização dos partidos de oposição, embora um ato contra a fascistização mereça a natural solidariedade dos decentes.

Também o rascunho da cópia de Donald Trump em Banânia chama seus opositores de terroristas. Como Bolsonaro é mais bagaceira do que seu homólogo americano, sobram outras adjetivações: "marginais e viciados". Ele ainda censura os "costumes", dos manifestantes, que não seriam os da maioria da sociedade brasileira.

Bem, a maioria da sociedade basileira não tem um Queiroz para chamar de seu, né?

Reproduzo a fala:
"Domingo, o pessoal de verde e amarelo, que é patriota, que pensa no seu país, que é conservador, esses que trabalham, que são liberais, que acreditam que o Brasil pode ficar melhor pelo trabalho... Não é ficar em casa, não. Não vá, não compareçam a esse movimento, que esse pessoal não tem nada a oferecer para nós. Bando de marginais. Muitos ali são viciados. Outros ali têm costumes que não condizem com a maioria da sociedade brasileira. Eles querem o tumulto, querem o confronto".

Bolsonaro não é idiota e sabe muito bem que eventuais atos violentos numa manifestação em favor da democracia colaboram, na verdade, com sua causa. Confesse, presidente: o senhor está torcendo para ter porradaria, né? Por isso insisto em que se multipliquem os documentaristas de manifestações. O que está levando Donald Trump ao desespero nos EUA não é a violência, mas o movimento pacífico.

O presidente e seus aloprados chegaram a viver a ilusão de que governariam sem oposição, apesar dos resultados pífios que apresentam. E foi esticando a corda... Um pouco mais, um pouco menos, também os partidos formais de oposição se surpreenderam com a disposição dos não-profissionais da política.

Não! Não dá para cometer o mesmo erro e hostilizar a política formal, institucional. Mas são os não profissionais que conferem às mobilizações o seu vigor.

Terroristas? Não! Talvez merecesse essa designação um certo quando, já pré-candidato, apoiou a greve dos caminhoneiros, notavelmente violenta. Custou mais de 0,5 percentual do PIB. Violaram-se ali vários direitos fundamentais garantidos pelo Artigo 5º da Constituição.

O medo se explica. Há o desgoverno interno e o comportamento moralmente homicida do presidente. E há os ventos que chegam de fora e que varrerão também o Brasil. Aqui ainda se matam negros todos os dias sob o silêncio cúmplice de brancos e de boa parcela dos próprios negros. Os humilhados de sempre estão cansados.

Ao longo de 17 meses de governo, Bolsonaro inventou, sem oposição, toda sorte de crise que lhe deu na telha. Não tendo a quem ameaçar, nas ruas, com um golpe de estado, resolveu, então, investir contra o Congresso e contra o Supremo.

Convém lembrar que o fundão do Centrão, que ele está comprando, fala pouco à alma dos descontentes. Aliás, o grupo contribui para expor a natureza do governo.

Terroristas, não, senhor presidente! Cidadãos.

Ou o senhor vai ameaçar, de novo, chamar as tropas, agora contra corintianos, palmeirenses, santistas, são-paulinos, flamenguistas, atleticanos...?

Nesse caso, é outro o "data venia".

Não dê uma de louco.

Seu governo caminha para o progressivo isolamento. No mundo. O Brasil está prestes a se tornar um pária internacional. E a culpa é sua.

E de quem lhe dá suporte.