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Protesto organizado na web | Ato contra racismo em Curitiba acaba com bombas de efeito moral

Protesto organizado na web | Ato contra racismo em Curitiba acaba com bombas de efeito moral

Depois de quase três meses sem produzir uma edição da Kevin, também conhecida como "Festa dos Pelados", o jornalista Rafael Maia decidiu aderir ao novo normal e criou uma versão virtual do evento. "Bombou!", comemora ele. "Conseguimos reunir 275 pessoas no Zoom."

Zoom é uma ferramenta digital utilizada basicamente para teleconferências. Criado em 2011 nos Estados Unidos, tornou-se uma solução prática para quem precisa trabalhar em casa durante o isolamento social recomendado em todo o mundo desde o começo da pandemia de covid-19.

No caso das reuniões profissionais, a imagem dos participantes aparece em "janelas" da tela subdividida do celular ou computador. Exceto por alguns deslizes que viralizaram na internet, como o da executiva que esqueceu a câmera ligada e usou o sanitário enquanto falava com colegas de trabalho, a ferramenta não se tornou conhecida por exibir pessoas nuas.

Sonoridade pop

Eis que no sábado, 30, a Kevin exercitou a banda alternativa do Zoom. "Foram oito horas de festa, a partir das 21h, e as pessoas entravam na tela à medida em que iam chegando", conta Rafa Maia. Ele diz que três DJs se revezavam, cada um tocando de sua casa uma "sonoridade pop eletrônica com foco em artistas LGBTs".

Um dos DJs, já seminu - Arquivo Pessoal
Um dos DJs, já seminu
Imagem: Arquivo Pessoal

Na versão virtual da festa, a lotação máxima é 300 pessoas, por determinação da plataforma, o que representa um terço do público que costuma frequentar a "presencial". Em ambos os formatos, a maior parte dos frequentadores se solta na medida em que vai ficando calibrada. Na física, o sexo acontece no chamado darkroom — quarto escuro onde os participantes praticam uma espécie de cabra-cega sexual.

À saída do darkroom, no claro, o parceiro pode ser aproveitado ou descartado, sem que ninguém fique (aparentemente) melindrado. Na versão digital, o descarte pode acontecer em um clique. Segundo o produtor, "essa brincadeira on-line é muito interessante porque o sexo virtual, o envio de nudes e o ingresso em aplicativos de pegação fazem muito parte do universo do público que frequenta a Kevin."

Versão "física" da Kevin - Arquivo Pessoal
Versão "física" da Kevin
Imagem: Arquivo Pessoal

Chapelaria congestionada

O nome da festa faz alusão às tirinhas Kevin & Friends, que retratam "as aventuras do menino inconvenientemente feliz". Criada em 2015, o evento foi projetado com o objetivo de fazer "as pessoas se sentirem livres de qualquer preconceito, especialmente na forma de se vestir". Isso incluía se despir. Durante a noite toda, a chapelaria costuma ser o ponto mais congestionado do lugar, porque os frequentadores costumam tiram a roupa aos poucos — a medida em que os aditivos vão fazendo efeito.

A Kevin tradicional, física, se realiza em uma boate de aspecto decadente (faz parte da proposta) localizada em uma ladeira pouco convidativa que passa embaixo de um viaduto no centro de São Paulo. O lugar tem paredes pintadas de preto, espelhos embaçados, neons esmaecidos e um palco minúsculo em que se apresentam performances.

Fila virtual

Na versão virtual, o link para entrar na sala já está disponível quinze minutos antes do começo da festa. Os primeiros a chegar entram no correspondente à 'fila' da festa presencial. "Na tela, cada pessoa fica em uma janelinha, uma ao lado da outra, e no centro, alguém em destaque. Como eu sou o host do evento, então posso revezar a todo instante quem vai para o destaque. Deixei que cada um permanecesse 20 segundos, para que todos pudessem ficar um pouquinho."

Na lateral da tela, há uma lista com os nicknames dos que estão ali. O frequentador pode deslizar a setinha pelas imagens de cada frequentador, mandar mensagens para todos ou chamar no privado. "Funciona mais ou menos como o clássico bate-papo do UOL", compara Maia.

Olhando pela janelinha

O quarto nem tão escuro é uma sala que reúne pessoas interessadas em fazer sexo (virtual). "Dei uma entradinha, mas como a festa estava boa, eu preferi ficar interagindo", diz o atendente Flávio de Quinto, 29 anos. Interagir significa dançar sozinho, em casa, e, ao mesmo tempo, com várias pessoas, na tela.

Pelo que Quinto conta, a versão on-line da festa tende a agradar mais quem aprecia o voyeurismo: "O contato físico é substituído pela observação das janelinhas. É legal reparar como cada um se diverte", diz. Reparar e puxar papo. "Adicionei e fui adicionado nas redes sociais."

Distribuição de tarefas

Os ingressos foram vendidos em quatro lotes nos valores de R$ 10, R$ 15 e R$ 20 — quarenta distribuídos gratuitamente. De acordo com Rafa Maia, o dinheiro arrecadado "ajuda a manter a festa viva", ou seja, a pagar as contas da versão física enquanto dura a quarentena.

O fim da versão on-line da Kevin revelou um aspecto prático para os anfitriões. Eles não precisaram se preocupar com a limpeza do salão, dos banheiros, nem, principalmente, do darkroom. Também não tiveram de amparar bêbados pelados nem carregar a aparelhagem de som pra casa. Muito moderno, o sistema distribuiu as tarefas entre os frequentadores, que se ocuparam, cada um, com arrumação do próprio espaço.