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Projeto ambicioso | Ilha de Ferro encerra trajetória com decepção

Projeto ambicioso | Ilha de Ferro encerra trajetória com decepção

Ilha de Ferro foi lançada no ano passado como uma das maiores promessas do Globoplay. A rotina de trabalhadores em uma plataforma de petróleo seria narrada de maneira grandiosa, com direito à construção de uma base que custou mais de R$ 2 milhões. O projeto ambicioso apostava no nome de Cauã Reymond para trazer alguma segurança. Não deu. Dois anos depois, o fracasso e o prejuízo foram tão grandes que a série foi encerrada precocemente, com o trabalho dos roteiristas jogado no lixo.

Mesmo com o excesso de drama, a série conseguiu chamar a atenção e foi eleita uma das melhores produções latinas pela americana Variety. Mas a primeira temporada já havia apresentado falhas: trabalhadores de plataformas reais condenaram a criatividade dos roteiros ao afirmar que aquilo que se via na tela não condizia em nada com o que acontece na rotina da vida real.

O fetiche pelo "sofrimento estilizado", já comum a outras produções do horário na Globo, esteve presente desde o início, mas foi preciso acompanhar uma segunda temporada para deixar os equívocos mais claros.

A série começa seu segundo ano eliminando a personagem de Sophie Charlotte, em uma decisão que, de início, parece um movimento sensato para amenizar toda a atmosfera de tragédia do enredo.

O problema é que a estrutura de Ilha de Ferro sobrevive de substituições. Assim, ao mesmo tempo em que o antagonista de Klebber Toledo é substituído pelo de Erom Cordeiro, Mariana Ximenes entra em cena para cumprir a cota de relações abusivas de Dante, o personagem pegador de Cauã. São essas relações que tentam segurar os episódios, claramente capengas em sua narrativa.

Atraídos pelo sofrimento como único recurso dramático válido, os roteiristas abusam dos limites da sobrevivência. Palavrões, gritos, suores e violências estão presentes desde o começo e colocam tudo tão para cima que, na sequência, não há mais para onde crescer.

A plataforma sempre está em risco e Dante precisa bancar o herói (cada vez de modo mais grosseiro), em uma narrativa que beira o folhetinesco. A simplicidade não existe em Ilha de Ferro, que segue dependente de referências hollywoodianas nocivas. A infelicidade e o pessimismo são as únicas possibilidades.

Protagonista de várias minisséries das 23h, como O Caçador (2014), Amores Roubados (2014) e Dois Irmãos (2017), Reymond foi o investimento derradeiro do projeto sonhado para ser o carro-chefe do serviço de streaming da Globo.

Pouco a pouco, a presença do astro na série começou a se tornar um de seus piores aspectos. Dante é grosseiro, machista, arrogante, egoísta, não tem um pingo de ética e na segunda temporada agride os funcionários e os trata como se fossem lixo. O complexo de durão que Cauã carrega em seus personagens parece impenetrável. Os roteiros, inclusive, se esquecem da crítica e tentam pintar Dante com cores "corajosas", como se o que ele faz justificasse a podridão que ele é.

O galã é um grande trunfo da casa, justamente porque seu talento passou a ser considerado unânime. O problema com Dante é muito mais de concepção do que de atuação, já que o ator faz o que pode para tornar falho esse personagem crível.

Todos os problemas de Ilha de Ferro, contudo, estão na ideia que os criadores têm sobre ela. Eles se debatem para criar um anti-herói que possa estar na Era de Ouro da Televisão, com seus "homens difíceis" liderados por Tony, de Os Sopranos (1999-2007). Mas o que conseguem é celebrar um ser humano desprezível, raso, sem camadas, que é horrível com todos, em especial com as mulheres.

Seria válido se a série confrontasse essa premissa com um olhar crítico. Ela, entretanto, prefere explorar a força do rapaz, sua dureza e sensualidade neanderthal, como se esperassem que ele fosse ser adorado justamente por ser tão errático.

O fracasso do segundo ano foi inevitável e desencadeou repercussões. O diretor artístico Afonso Poyart deixou a atração e, especula-se, está a caminho da Netflix. João Mesquita, ex-diretor do Globoplay, assinou com a Amazon.

Amargando aquele que pode ser seu pior personagem, Cauã Reymond terá de voltar às novelas, depois de passar anos as evitando. Ilha de Ferro também não chegarà à TV regular, ao contrário de outras produções do serviço de streaming. Virou uma embarcação fantasma, um monumento milionário ao fracasso. Espera-se, pelo menos, que tenha ensinado ao núcleo de Dramaturgia alguma lição.

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