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Opinião | O que ensinam na academia não é suficiente para o mercado

Opinião | O que ensinam na academia não é suficiente para o mercado

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Graças a uma greve que ocorreu ano passado em uma das universidades onde eu leciono, hoje é o último dia de 2019. As últimas semanas foram de provas, correções de provas, correções de trabalhos, avaliações finais e afins, isso tudo enquanto tenho que preparar as aulas que já estão para iniciar na outra universidade. Tenho ministrado aulas para educação superior na área de T.I., nem todas as disciplinas que eu ministro são diretamente ligadas à programação, mas a gente sempre se preocupa se o ensino de programação está caminhando bem e se os novos profissionais estão sendo bem preparados.

Para começar bem a discussão, gostaria de deixar bem claro, o mais claro possível, que não é necessário um curso superior para se tornar um programador. Não é necessário nem mesmo um curso. É lógico que os cursos são a forma mais direta para se aprender, mas é uma área onde existe material sobre tudo na internet e temos vários bons exemplos de autodidatas. Essa semana mesmo vi a notícia de uma grande empresa de tecnologia anunciando que não ia mais exigir curso superior para programadores (não lembro qual foi a empresa, mas vocês podem me ajudar nos comentários).

Ainda assim, outra coisa que eu gostaria de deixar bem clara é que sou muito favorável ao ensino superior. Eu não estou incentivando abandonar os estudos, mas gostaria que todos os alunos, ex-alunos e futuros alunos entendessem que não estão cursando uma faculdade para se tornarem programadores, mas algo bem mais amplo que isso. São vários os cursos disponíveis em T.I., portanto, a formação vai ser diferente, mas não se vê um curso superior em programação, apenas.

Bom, agora que já ficou (um pouco) claro, vamos pensar sobre o ensino de programação. Dito isso, é preciso ter em mente que o ensino de programação não se restringe ao ensino superior, mas a cursos presenciais, on-line ou ainda a vários cursos que estão sendo ministrados em escolas de ensino médio e fundamental. Eu mesmo fiquei todo feliz com o meu filho voltando para casa empolgado após a primeira aula de programação, onde ele vai aprender as mesmas coisas que ele não tem paciência de aprender em casa 🙂

Chegando ao ponto: o ensino está preparando os profissionais para o mercado? O que está sendo ensinado está de acordo com o que o mercado precisa? E o mercado está querendo que se formem programadores completos ou que apenas desempenhem bem algumas ferramentas?

Há um tempo atrás escrevi aqui sobre como iniciar na área de programação e incluí no post um vídeo sobre qual é a melhor linguagem para aprender a programar (vou incluí-lo novamente aqui), onde comentei sobre as linguagens utilizadas em cursos. Será que um novo programador que começa um curso aprendendo Pascal vai estar preparado para o mercado?

Não vou dizer que existe um abismo, mas existe um grande "gap" entre o mercado e a academia. Enquanto o mercado está sempre atualizando as linguagens e tecnologias, parece que a academia vai ficando para trás, ensinando sempre as mesmas coisas. Parece. Será que é assim?

Já adianto que não vou responder questões as quais eu não possuo a resposta. Eu quero, mesmo, contribuir para a discussão, e conhecer opiniões diferentes, de quem está em posições diferentes, o que sempre é bom. Mas eu queria atentar para um grande problema que vejo quando essas discussões são levantadas pela internet: assim como você não precisa de uma faculdade para aprender programação, a faculdade não precisa (e nunca vai) te ensinar tudo o que você vai precisar em programação.

Temos que entender bem o papel de cada um. Assim como a escola fundamental não vai preparar a criança para conseguir um emprego, a faculdade também não vai entregar para a empresa o profissional pronto. Um curso superior vai ter ensinar a base, o fundamento de programação e computação em geral que não muda. Lógico que você vai aprender isso com alguma ferramenta, alguma linguagem, mas se a linguagem mudar você não vai precisar refazer a faculdade.

Nesse ponto é onde entram os cursos rápidos, que são cursos mais direto ao que você quer. Você pode fazer um curso de Python, por exemplo, mas não vai fazer uma faculdade de Python. Os cursos estão aí para nos ensinar as ferramentas e nos deixar "no ponto" para aquela função específica. E é nesse momento em que eu fico em pé e aplaudo as empresas que entendem isso e não contratam um programador só se ele souber determinada ferramenta, mas que estão prontas a capacitar os programadores naquela ferramenta dentro da própria empresa.

Será que as nossas entrevistas de empregos não deveriam focar mais em saber se a pessoa é capaz de manter um raciocínio lógico, em seguir uma lógica de programação para resolver um determinado problema, do que em saber que a pessoa sabe a versão 25.9.24.2 do framework Escrambolius? Será que a empresa não conseguiria deixar o profissional no ponto no período de testes?

Claro que a empresa não quer alguém cru e não quer perder tempo ensinando tudo e é aqui que podemos diminuir o "gap". Você que é o programador, tem que saber o mínimo para a vaga. Busque aprender bem os fundamentos e estar também pronto para o que o mercado usa. Arregace as mangas, estude um pouco por conta, saiba que você nunca vai saber todos aqueles pré-requisitos malucos de vagas de empregos e esteja pronto para se aprimorar sempre.

Enquanto isso, na área acadêmica a gente sempre precisa se reavaliar se os fundamentos estão sendo bem ensinados e como podemos diminuir o "gap" no lado do ensino. A faculdade também precisa atualizar seus materiais, suas ferramentas e trazer sempre aquele "gostinho de quero mais" para os seus alunos.

Como prometido, estou colocando de novo aqui o vídeo sobre as linguagens, lembrando que a Universidade de Stanford decidiu adotar JavaScript como linguagem inicial, pensando em diminuir esse "gap". O que você acha disso?