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Opinião - Nina Lemos | Homem que filmou advogada diz que fez brincadeira. Foi assédio

Opinião - Nina Lemos | Homem que filmou advogada diz que fez brincadeira. Foi assédio

Imagem: Reprodução/Instagram

"Era uma brincadeira íntima de dois amigos". Essa foi a desculpa usada pelo empresário Ricardo Roriz, de 62 anos, que gravou uma mulher fazendo ioga na praia, enquanto fazia comentários absurdamente baixos com um "amigo", que também assistia as duas como se fosse um espetáculo pornô e fazendo gestos obscenos.  

Bem, a tal "brincadeira" é crime. E aconteceu com a advogada Mariana Maduro, de 33 anos e uma amiga.

A advogada disse que ficou tão traumatizada que não pensa mais em fazer ioga. Nos depoimentos sobre o que viveu, ela conta a história com um choro desesperado. "A ioga estava me ajudando a superar a depressão que eu tive na pandemia, que eu tava sozinha, sem ninguém, foi a ioga que me ajudou. E agora tiraram até isso. Eu nunca mais vou fazer ioga", contou, chorando.

Mariana estava tentando melhorar e em troca recebeu esse cuspe na cara. 

Para piorar, o senhor Roriz transformou o cuspe na cara em um espetáculo para milhões, já que colocou o vídeo na internet. Além de filmar e expor o corpo  o corpo de duas mulheres sem autorização, ele falou coisas nojentas. E, para piorar, ele postou nas redes sociais.

O que leva um homem a fazer isso? Uma cultura tão, mas tão sexista que naturaliza o abuso e faz com que assediadores acham que podem fazer o que quiserem. Nada vai acontecer com eles mesmo…

No tal "pedido de desculpa", postado em sua rede social, ele disse também que o vídeo SÓ tinha ficado no ar por 50 minutos.

A advogada disse que não aceitou as desculpas, e que se sentiu muito mal ao ler as desculpas. 

O assédio não foi comigo, mas também me senti mal ao ler a entrevista com a advogada, ao ver trechos do vídeo e ao ler as desculpas do assediador. Acho que quase todas as mulheres sentiram o mesmo.   

Isso porque, infelizmente, conseguimos nos colocar no lugar de Mariana e sentir a sua dor. Nos acostumamos desde cedo a ter que tomar cuidado com "tamanho do short" ao atravessar a rua em frente um botequim. A não pegar ônibus com a roupa de ginástica. E isso desde que éramos crianças. 

"Ah, mas é assim". Não é. Esse tipo de violência é normalizada no Brasil muito mais do que em outros países. E o fato desse senhor achar que estava fazendo uma brincadeira é mais uma prova disso.

Imagina se você rouba a carteira de uma pessoa e depois diz que estava "brincando de roubar"? Louco, né? Mas é a mesma coisa. Assédio é crime. Roubo também. 

Com a voz embargada de choro, Mariana gravou um vídeo e postou em seu perfil no Instagram na noite de ontem analisando as desculpas. "A conversa entre amigos são 300 mil amigos? Era nitidamente uma postagem que estava sendo feita! Ele não estava conversando com um amigo e alguém o gravou inadvertidamente e o vídeo vazou. O que ocorreu foi que deliberadamente ele sacou o celular estimulando que um terceiro fosse nos abordar e mostrasse o apreço que ele teve pelo nossos corpos." 

Mesmo se fosse uma conversa entre amigos, isso seria inaceitável. "Ah, mas é normal que homens falem essas coisas". Não é, não!  

Mariana, que corajosamente se manifestou e denunciou o assediador, ainda por cima, agora, sofre ataques nas redes sociais. Há quem diga que mulheres que ficam de biquíni estariam "estimulando" o assédio. É inacreditável que ainda tenha gente em 2020 que use o papo "não reclame, quem mandou usar saia curta." 

Assédio não é brincadeira. Isso não pode ser banalizado de forma alguma. 

Que a "brincadeira" seja punida. E, homens, por favor, parem de ser coniventes. Se vocês verem um amigo assistindo um vídeo desses, rindo e compartilhando esse tipo de coisa, não deixe passar, não finja que está tudo bem.

Enquanto homens acharem que se trata de "brincadeira" não está nada bem.