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'Não saio do meu closet' | Dona de 500 pares de sapato, advogada paulista não sabe onde usá-los na quarentena

'Não saio do meu closet' | Dona de 500 pares de sapato, advogada paulista não sabe onde usá-los na quarentena

Desde o início da quarentena decorrente da pandemia de covid-19, em março, a advogada paulista Silvia Bonfiglioli não tinha encontrado ocasião para usar um dos cerca de 500 pares de sapatos que mantém no armário. Finalmente, na última quarta-feira, surgiu um motivo alegadamente plausível para poder calçar um modelo colorido da grife italiana Padra, "made to order" (feito sob encomenda). Mesmo sem sintomas da infecção, ela resolveu fazer o teste para Sars-coV-2 (novo coronavírus).

Devidamente acompanhada por um fotógrafo profissional contratado para abastecer seu instagram, Silvia foi a um laboratório de análises clínicas próximo a sua casa. "O teste deu negativo, pena. Queria ter o anticorpo, estar imunizada, mas como seria possível, se eu estou seguindo à risca a orientação das autoridades de saúde? Praticamente não saio do meu closet", diz.

A caminho do laboratório onde fez o teste para novo coronavírus; sapato colorido "made to order" da grife Prada - @holtsman
A caminho do laboratório onde fez o teste para novo coronavírus; sapato colorido "made to order" da grife Prada
Imagem: @holtsman

Tudo tão feio

Aconchegada no meio das centenas de peças, ela se delicia montando "looks". Só de chapéus, são mais de 300. No dia do teste, usou um modelo Georgio Armani ("Amooo chapéus masculinos!"). "Meu marido não pode reclamar de que eu não tenho nada na cabeça", diz ela, rindo muito. "Ah, sabe, eu acho que a gente tem que se divertir, a vida precisa ser leve. Está tudo tão feio. E depois, você sabia que sorrir aumenta a imunidade? Eu sou positiva, torço pelo meu País. Minha bandeira é o Brasil."

Embora tenha votado em para presidente, a advogada explica que é lavajatista, não bolsonarista. "Minha primeira opção foi o João Amoedo (Partido Novo). No segundo turno, não tive saída."

Pode-se imaginar o quanto ela lastimou o desembarque do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo: "Eu nem sei o que dizer", balbucia, emocionada. "O Moro é um herói pra mim. A gente precisa dele, não ele da gente!"

Ela se inflama: "Chega de corrupção! Roubou, tem de ir para a cadeia! Você vai para os Estados Unidos, fica encantada de ver como eles operam o follow the money (expressão para designar o dinheiro como pista de roubo)! Não tem apelação! A Justiça tem de valer para todos. Chega desse negócio de só prender os três "p", pobre, preta e prostituta! Isso tem de acabar!"

Foto e ilustração

De tão fã de Moro, Silvia posou para fotos no jardim do Palácio de Cristal, em Curitiba, e enviou um dos registros ao ex-ministro e à mulher dele, Rosângela, como lembrança. Na imagem, ela aparece com um modelo Dolce & Gabbana, uma bolsa Hermès Kelly Touch e um sapato Jimmy Choo. Explica que a Kelly Touch "é a bolsa das mulheres que não precisam trabalhar". "Você vê como é pequena? Não cabe laptop, nada. Só o estritamente necessário."

Silvia foi a Curitiba para prestigiar um evento da joalheria Tiffany & Co. "Adoro as coisas deles", afirma. O fotógrafo profissional costuma acompanhá-la também em viagens. A partir das fotos, uma artista-plástica produz ilustrações. Tudo é postado no "insta". Ela lamenta que o casal Sergio Moro nunca tenha recebido a foto. "Infelizmente, não chegou a eles."

A ilustradora Lulu Aguiar produz desenhos a partir das fotos dos "looks" - @holtsman
A ilustradora Lulu Aguiar produz desenhos a partir das fotos dos "looks"
Imagem: @holtsman

Esquece o Bolsonaro!

Entre a quarentena e a debandada de ministros do governo, Silvia mantém o otimismo de sempre e diz apostar suas fichas no ministro da Economia. "Esquece Bolsonaro! Tira a figura dele da cabeça! A gente só não pode perder o (Paulo) Guedes." A advogada acredita que em breve a quarentena será flexibilizada. "Parar a economia é parar o mundo, gente. Não dá!"

Com a leveza de costume, ela afirma que a suspensão temporária da atividade comercial em São Paulo a levou a uma espécie de desconexão identitária: "Estou sem consumir há mais de dois meses. Já nem sei quem sou", afirma. De repente, passa a falar apenas em inglês: "Sorry! I'm so nervous about this vírus! For God sake! What is happening to the world!!"

Birkin chocolate

A última peça que comprou foi uma Birkin Bag, modelo clássico da Hermès, em fevereiro. O nome da bolsa é uma homenagem à atriz inglesa Jane Birkin, cultuada a partir do fim dos anos 1960 pelo vanguardismo. A de Sílvia é "púrpura". Ela não diz o valor, mas a média entre os modelos Birkin é R$ 60 mil.

"Tenho muita coisa, mas faço muita caridade. Entra muita roupa e acessório aqui, e sai muito. Agora mesmo vou organizar um leilão beneficente de uma Birkin chocolate, com renda revertida para uma instituição que acolhe animais."

Parte do dinheiro que gasta em compras, segundo ela diz, "fica" no Brasil. Isso porque Silvia dá preferência a adquirir os itens importados em São Paulo. "A gente tem de prestigiar as vendedoras brasileiras, que são maravilhosas. Dar emprego a essas pessoas que nos atendem tão bem!"" Casada, dois filhos, a advogada vive em um casarão na zona sul de São Paulo. Diz, às gargalhadas, que seu casamento começou a ruir quando ela comprou a primeira Birkin.

O look do teste

Além do sapato Prada e o chapéu Giorgio Armani, ela usou no dia do teste para novo coronavírus uma camisa masculina da marca norte-americana Brooks Brother, calça 7 e bolsa branca da francesa Goyard.

Ela pretende voltar ao laboratório (com outro look, naturalmente) no fim do mês, para repetir o teste: "Eles estão dizendo que o pico da pandemia é agora em maio", diz.

Se ainda não tem o anticorpo para SARS-CoV-2 (novo coronavírus), ela se diz vacinada contra embusteiros que tentam lhe empurrar bolsas falsas. Diz que se imunizou quando uma "amiga" vendeu para ela um modelo de Birkin fake. "Levei um golpe! A mulher era 171 Plus" (referência ao artigo do Código Penal que versa sobre estelionato). "Mas eu denunciei até no Amaury Jr."