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Não é questão psiquiátrica | Riso, choro ou bocejos involuntários podem sinalizar transtorno neurológico

Não é questão psiquiátrica | Riso, choro ou bocejos involuntários podem sinalizar transtorno neurológico

O riso e o choro compulsivos que acontecem de forma involuntária sinalizar um transtorno chamado de síndrome do afeto pseudobulbar. O assunto ganhou repercussão a partir do filme Coringa, no entanto, o neurocirurgião Júlio Pereira, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, alerta que é importante destacar que essa é uma síndrome neurológica e não psiquiátrica.

Essa síndrome é associada a diferentes doenças neurológicas como esclerose lateral amiotrófica (ELA), esclerose múltipla, atrofia de múltiplos sistemas (ALS) e demências vasculares, entre outras. Até pacientes que sofreram um AVC (acidente vascular cerebral) podem apresentá-la. "O afeto pseudobulbar tem uma doença de base que causa dano nas regiões emocionais gerando um descompasso", considera Carlos Altieri, neurologista do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Portanto, o diagnóstico deve ser realizado por um neurologista e, por meio de tratamento medicamentoso, será possível ter o controle dos sintomas.

Entenda melhor o quadro

A síndrome do afeto pseudobulbar, como o próprio nome indica, não é uma doença, mas um conjunto de sintomas que manifestam risos, choros ou bocejos abruptos e sem motivação aparente. "A manifestação clínica ocorre devido à ineficiência das vias neurais associativas entre as estruturas do córtex frontal e do sistema límbico e mesencéfalo que gera o quadro clínico característico", explica Altieri.

É importante ressaltar que, além do afeto pseudobulbar, as manifestações involuntárias de riso descontrolado também são sintomas da crise gelástica que, nesse caso, acaba sendo identificada em pacientes com epilepsia ou em consequência de um tumor na região hipotalâmica. "São sintomas muito parecidos, com causas diferentes que podem ser identificadas em exame", confirma Pereira.

Investigação é necessária

Essa é uma condição que pode ser confundida com uma doença psiquiátrica e alguns pacientes chegam a pensar que estão enlouquecendo. "Há perda do controle voluntário de emoções, com diminuição do limiar para a resposta de chorar, rir ou associação das duas. Ocorrem 'crises' sem estímulos ou com estímulos muito fracos", diz Jerusa Smid, neurologista do Ambulatório de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do HC-FMUSP (Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e do Instituto de Infectologia Emilio Ribas.

Por isso, esse descontrole pode levar ao isolamento, comprometendo a qualidade de vida e gerar muito sofrimento. Pereira lembra que pacientes neurológicos podem apresentar quadros psiquiátricos em comorbidade, como a depressão. E muitas vezes, os sintomas podem não ser investigados por —supostamente — estarem associados ao comportamento emocional. Portanto vale buscar orientação de um neurologista para acompanhamento adequado.

"O diagnóstico do afeto pseudo-bulbar é clínico e os exames complementares são úteis para comprovar a existência de lesões na área fronto-meso-limbica, afirma Altieri. O tratamento sintomático com antidepressivos irão controlar os sintomas. Não há cura, mas é possível diminuir a intensidade das crises. "O antidepressivo ajuda a modular as emoções, por isso é o medicamento mais adequado", fala Pereira.

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