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'Mina de ouro' | Gigante dos testes de DNA faz remédio usando dados dos clientes

'Mina de ouro' | Gigante dos testes de DNA faz remédio usando dados dos clientes

A popularização dos testes de DNA online tem levado a caminhos que talvez os desavisados não previssem. Fáceis de usar e baratos, eles viraram uma febre; muita gente já usou para achar parentes distantes ou para descobrir alguma predisposição a certas doenças. Com R$ 220, um pouco de saliva e alguns cliques, você desvenda sua árvore genealógica e aprofunda seu histórico de saúde. Mas os dados fornecidos pelo DNA não são usados apenas para isso —e, cada vez mais, fica claro que falta um debate maior sobre a proteção dessas informações.

No ano passado, o teste foi usado para resolver um crime de assassinato que estava arquivado há anos e, pela primeira vez, o autor do crime foi condenado nos EUA. Depois, um detetive da polícia norte-americana conseguiu na Justiça o direito a acessar dados de site de genealogia, caso que abriu precedente e deixou vulnerável os dados de pessoas que não cometeram crime algum. Agora, a gigante norte-americana de testes genéticos 23andMe parece ter encontrado uma mina de ouro com esses dados: fez remédios a partir dos dados dos clientes.

A escavação dessa mina começou a ficar mais evidente na última semana, quando a empresa, sediada no Vale do Silício (EUA), anunciou ter licenciado a um laboratório europeu um medicamento que ela própria começou a desenvolver a partir da informação genética fornecida pelos kits de testes que são seu carro-chefe.

É a primeira vez que a 23andMe age nessa direção. O acordo foi assinado com a farmacêutica espanhola Almirall, que comercializará o futuro medicamento após testá-lo em humanos e desenvolvê-lo por completo. Antes disso, o grupo norte-americano havia testado a droga em animais.

Segundo a agência Bloomberg, o medicamento a ser projetado terá a função de bloquear pequenas proteínas específicas associadas a uma variedade de doenças inflamatórias, entre as quais, problemas de pele e doença de Crohn. O foco maior da 23andMe, entretanto, são as formas mais graves de psoríase, uma doença inflamatória crônica da pele multigênica (ou seja, com vários genes envolvidos) e marcada por manchas vermelhas e escamosas —só nos EUA, afeta mais de 8 milhões de pessoas.

Dados genéticos de 10 milhões de pessoas

Atualmente, a empresa possui dados genéticos de aproximadamente 10 milhões de pessoas. Segundo a companhia, 80% dos clientes concordaram em permitir que seus dados fossem usados, de forma anônima, em pesquisas - inclusive sobre medicamentos. O detalhe é que, ao assinar o termo de serviço consentindo com o uso de seus dados genéticos, o cliente abre mão de qualquer benefício financeiro, ainda que seus dados ajudem a desenvolver um medicamento de sucesso no mercado.

Além do material genético para testes sobre ancestralidade e saúde - no caso, doenças às quais a pessoa pode estar sujeita, conforme indiquem seus genes -, a 23and Me ainda coleta uma variada gama de informações sobre hábitos de vida, características físicas e a saúde de seus contratantes, por meio de questionários online que reforçam seu repositório de dados e o elevam, em definitivo, à condição de mina de ouro.

Isso porque, na busca por novos medicamentos, os pesquisadores podem procurar relações entre genes específicos e resultados de saúde e direcioná-los à terapia necessária.

Fins científicos x fins comerciais

O site One Zero, especializado em tecnologia e ciência, escreveu sobre o assunto e advertiu: embora o anúncio de parceria da 23andMe com o laboratório europeu pareça ter surpreendido muita gente, que não é de hoje que a gigante tem explorado seu extenso banco de dados para encontrar novos medicamentos.

Já em 2015, por exemplo, a empresa começou a deixar suas ambições mais claras ao criar uma divisão terapêutica de uso de dados genéticos para identificar novas terapias a doenças comuns e raras. Até aquele ano, eram 5 milhões de clientes, base que mais que dobrou, desde então, conforme números da empresa.

No entanto, embora os clientes compartilhem seus dados genéticos para pesquisa de forma proativa, eles não podem escolher que estudos podem utilizar esses dados, tampouco têm como saber quais empresas ou organizações podem estar usando seus dados - nem como.

Esse compartilhamento de dados genéticos com farmacêuticas, por sinal, já teve uma prévia: em 2018, a 23andMe vendeu à britânica GlaxoSmithKline uma participação de US$ 300 milhões. Na ocasião, entraram na transação os direitos exclusivos de usar seus dados para o desenvolvimento de medicamentos. A diferença para a negociação mais recente, com os espanhóis, está no fato do 23andMe ter identificado um candidato a medicamento e realizado estudos em animais, internamente, antes de vendê-lo.

Algumas das principais instituições acadêmicas norte-americanas, como as Universidades de Stanford, Harvard e o Broad Institute, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), bem como organizações médicas sem fins lucrativos, como o Lupus Research Institute e a Michael J. Fox Foundation, também têm estreitado laços com a 23andMe.

Ao que tudo indica, a exploração dessa mina de ouro abastecida com dados genéticos de clientes ávidos pela busca de seus ancestrais parece estar só no começo. À Bloomberg, o 23andMe confirmou que planeja continuar a desenvolver medicamentos e levá-los a testes clínicos - ou seja: a droga testada e licenciada aos espanhóis deve ser a primeira de várias.

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