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Economia | Reinaldo: Quem achava ter R$ 105, agora só tem R$ 1 e excesso de otimismo

Economia | Reinaldo: Quem achava ter R$ 105, agora só tem R$ 1 e excesso de otimismo

Como? O governo revê a perspectiva de crescimento do PIB, em uma semana, de 2,1 para 0,02? Eis a evidência numérica de que Paulo Guedes está perdido. Nem ele nem o governo Bolsonaro têm culpa pela pandemia de coronavírus. Mas são responsáveis por agir como autômatos — incapazes de aprender com a realidade — e por se negar a ver os fatos.

Comecemos pelo óbvio: inexiste crescimento de 0,02%. Quem dera os nossos modelos para antever crescimento fossem assim tão precisos. Vai ver esses dois centésimos por cento ficam na conta das empresas de telefonia. Em isolamento, as pessoas se falam mais à distância. Proibidos de ver nossos país, nossos avós, apelamos ao telefone...

Pergunta: é razoável que um governo, em uma reles semana, divida o crescimento previsto por 105??? Dirá alguém: "Caramba, Reinaldo! Olhe o que fez o coronavírus!" Fato. Mas já estava fazendo no dia 11, enquanto Guedes e, sobretudo, Bolsonaro atuavam no modo negação. Ademais, aqueles 2,1 já eram mentirosos. Todos os analistas já operavam com uma perspectiva pouco acima de 1% mesmo antes dos efeitos econômicos do patógeno alucinado.

Havia uma mentira estúpida sendo contada aos brasileiros.

É claro que esses dois centésimos por cento — quase um trava-língua — de crescimento é falso como uma nota de dois centésimos de real. O governo resolveu rever os números e certamente encontrou recessão. Acha que, se disser aos poucos, dói menos. Nas contas da FGV, pode chegar a menos 4,4%, com efeitos que avançam para 2023.

Percepção pessoal não é um bom medidor de PIB, eu sei. Mas vá lá: os menos 3,6% de Dilma, em 2016, ainda juntavam gente nas ruas. Inclusive para gritar "Fora Dilma!". Agora é o deserto. Os gritos dos enclausurados ecoam das sacadas e janelas.

De novo: o governo não é culpado pelo vírus. Só por omissões, por comportamento criminoso (no caso do presidente), por informações distorcidas, por discurso triunfalista.

Distorção e triunfalismo anteviram amanhãs sorridentes que não tinham base nos fatos, apesar de ser este, segundo Bolsonaro, "o melhor governo que o Brasil já teve"... A omissão, sim, é de Guedes — além de uma dose considerável de alienação da realidade. A pandemia já havia sido esfregada no seu nariz, e lá veio o papo-furado do tal crescimento de 2,1%. A modesta revisão para baixo (antes, 2,4%) foi feita no dia 11. Naquela mesma quarta, o Grande Timoneiro desembarcava no Brasil vomitando 22 contaminados pelo coronavírus. Um 23º ficara nos EUA. Agora o "duce" diz que pode estar, sim, com o vírus.

Bastaram nove dias para que aqueles homens sábios viessem a público para dizer que, por enquanto, o crescimento será 99,04% menor. Ou por outra: na boa perspectiva, corresponderá a apenas 0,96% do anunciado. É que eles não dão muita bola pra gente. Guedes costuma se irritar com a nossa curiosidade. Não vislumbra fora de si mesmo aparelho mental capaz de entender seus nobres desígnios.

Ficou abstrato esse papo de dividir por 105, de 0,96%? Vamos para a vida prática. Você jurava, leitor, estar com R$ 105 na carteira. Pensou até em tomar um café e comer um pão de queijo. Meteu a mão no bolso e encontrou 1/105 do esperado, só 0,96% da sua expectativa: UM REAL! Esse é o tamanho do engano. E do desengano.

Reitero: exceção feita àqueles, por ora, 22 casos, o vírus não chegou ao Brasil por responsabilidade de Bolsonaro. Mas o governo responde, sim, pelo resto da empulhação. E pela alienação.

Ah, um conselho: em eventuais viagens futuras do presidente, enquanto ele estiver por aí, em que a presença de Guedes seja necessária, convém que o ministro seja levado em outra aeronave. Questão de salubridade.