Geral

Desempregados recentemente | Bebê sem convênio e gastos: demitidos durante pandemia contam drama

Desempregados recentemente | Bebê sem convênio e gastos: demitidos durante pandemia contam drama

Além de lidar com o isolamento social e todo o caos gerado pela pandemia do coronavírus, muitos brasileiros precisam enfrentar outro vilão da economia: o desemprego. O presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, disse que o Covid-19 pode deixar um rastro de 40 milhões de desempregados, número 236% maior do que o registrado hoje.

Alguns já enfrentam essa realidade. O UOL conversou com três pessoas que foram desligadas do trabalho nas últimas semanas. Os relatos são de choro, medo e incerteza quanto ao futuro. Veja abaixo.

Mudou do Rio para BH e foi demitida

A publicitária Sara Martins, 35, trabalhou por quase seis anos em uma empresa do Rio de Janeiro. No mês passado, disse à reportagem, uma companhia de software com filial em Belo Horizonte ligou para ela e ofereceu uma vaga na capital mineira, para o cargo de Product Owner. O nome da firma não será revelado, pois há um contrato de confidencialidade.

"Eu falei não, pois BH estava em uma situação ruim por causa das chuvas, e eu estava bem no trabalho, mas a supervisora da empresa de BH entrou em contato de novo e reforçou o auxílio de custo para mudança, ajuda para achar casa e acompanhamento de carreira. Por causa disso, aceitei", disse Sara, que se mudou com seu marido e seus dois cachorros.

No início da semana passada, falou Sara, seu gerente agendou uma conversa por telefone. Até então, por causa da pandemia do coronavírus, ela estava trabalhando de casa.

Achei que ele ia me dar uma mensagem de paz por causa dessa crise. Mas não, ele me demitiu. Fiquei sem chão e chorei. Entendo que a situação é grave por causa do vírus, mas a empresa me tirou do Rio, onde eu estava super bem, e agora faz isso comigo? Foi maldade.
Sara Martins, 35, publicitária

Como estava no período de experiência, Sara não tem direito a benefícios, como seguro-desemprego e FGTS. Ela disse que já começou a correr atrás de outro emprego, mas está com receio, pois o mercado da capital mineira ainda é desconhecido para ela. Mudar, falou, está fora de cogitação, pois o gasto para ir à capital mineira foi alto —cerca de R$ 15 mil, ela estima.

Sara disse também que tenta, pelo menos, conseguir da empresa o valor da ajuda de custo prometida, montante que, segundo ela, poderia cobrir a despesa que teve com a mudança. "A gerente de RH disse que vai tentar me ajudar no que estiver ao alcance dela", falou.

'Tomei um susto e comecei a chorar'

A analista de Departamento Pessoal Luana Régis, 27, trabalhava em uma fintech de São Paulo desde setembro de 2019. O nome da empresa, a pedido dela, não será divulgado.

Na sexta-feira (20), depois de uma semana fazendo home office por causa do coronavírus, ela disse que recebeu uma ligação do chefe dizendo que a situação da startup estava difícil, e que seria preciso demitir algumas pessoas.

No início da conversa, não achei que eu estava na lista. Quando ele falou que eu seria desligada também, tomei um susto e comecei a chorar. Meus pais tiveram que me acudir e, depois disso, não escutei mais nada do que meu chefe estava falando.
Luana Régis, 27, analista de Departamento Pessoal

Luana disse que, depois do episódio, recebeu mensagens de seus superiores. A empresa, segundo ela, se comprometeu a deixar o convênio médico.

"Entendi a situação, mas acredito que faltou um pouco de cuidado na hora do desligamento. Tudo bem que tivesse o corte de pessoal, mas é preciso dar essa informação com carinho, principalmente nesse momento em que vivemos", falou.

Desde que foi demitida, Luana disse que começou a enviar currículos. Ela disse que também entrou para um grupo de mentoria criado por outra funcionária desligada da empresa em que trabalhava.

Nesse meio de pandemia, vai ser difícil conseguir emprego agora, mas não podemos deixar a peteca cair. Temos que pensar positivo.
Luana Régis, 27, analista de Departamento Pessoal

'Um choque para um pai de família'

O engenheiro de Software Frederyk Linhares, 36, é pai de uma bebê de um ano e dois meses. Na terça-feira passada (24), ele foi desligado da empresa, a mesma onde Sara, a primeira personagem desta matéria, trabalhava. Como ela, Linhares também estava em período de experiência.

O motivo alegado pela gerência, disse ele, foi o cenário atípico gerado pela pandemia do coronavírus, que teria causado uma grande perda financeira para a companhia.

Receber uma notícia dessas no meio de uma pandemia é um choque para um pai de família. E, no meu caso, a demissão teve um efeito colateral, pois eu tinha acabado de cancelar o plano de saúde da minha filha, que seria incluída no plano oferecido pela empresa.
Frederyk Linhares, 36, engenheiro de software

Para deixar a situação ainda mais preocupante, disse Linhares, sua mulher não tem trabalho formal, e a reserva financeira guardada por ele é baixa, suficiente para bancar a família por, no máximo, dois meses.

Conseguiu emprego depois de post no LinkedIn

Linhares disse que, se tivesse sido demitido em outro momento, correria atrás de trabalho da forma tradicional, por meio de buscas no LinkedIn e de outras plataformas.

Diante do cenário em que estamos vivendo, tentei uma estratégia mais agressiva e expus minha situação no LinkedIn. O post viralizou e teve 9.000 visualizações.
Frederyk Linhares, 36, engenheiro de software

Linhares disse que foi contatado por algumas empresas e fez entrevistas. Na quinta-feira passada (26), disse, recebeu a notícia positiva. "Graças a Deus, consegui me recolocar".

Empresa pode demitir funcionário no meio da pandemia?

As empresas podem, sim, demitir durante a pandemia, segundo Danielle Blanchet, advogada trabalhista do escritório Marins Bertoldi, de Curitiba (PR). As regras de dispensa de antes da crise gerada pelo coronavírus continuam as mesmas que as de agora.

"Se a pessoa é demitida sem justa causa e preenche os requisitos para receber benefícios, como seguro-desemprego, saque do FGTS, verbas rescisória etc., ela mantém todos os direitos, independentemente ou não de pandemia", falou.

Ela disse, no entanto, que tanto a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) como a MP (Medida Provisória) 927 dão às empresas alternativas além do desligamento, que podem ser benéficas tanto para o negócio como para o funcionário.

"Algumas das opções são redução de salário em até 25%, antecipação de férias individuais ou coletivas, banco de horas extraordinário e outras medidas que, eventualmente, podem ser até mais baratas para as empresas do que a demissão", disse.