Geral

Democratização da leitura | Projeto leva livros infantojuvenis para os muros das ruas em Brasília

Democratização da leitura | Projeto leva livros infantojuvenis para os muros das ruas em Brasília

Lançado em junho, o infantojuvenil "O menino invisível" é um livro diferente. Não pela temática sensível, mas porque foi "impresso" primeiro em um muro de Brasília. Antes de ganhar sua versão em papel, a obra foi grafitada página por página em um muro da Asa Sul da cidade. Com a projeção das imagens originais, a ilustradora brasiliense Siren foi dando vida àquele livro gigante de 80 metros de comprimento nas paredes de um posto de gasolina.

Com a ideia de popularizar e democratizar a leitura, o escritor e redator publicitário Hugo Barros é responsável pelo que se considera o "primeiro livro do mundo impresso em um muro", dando origem ao "Livro de Rua", projeto em que o papel dá lugar ao grafite.

"Não é apenas um livro grafitado na rua, são também os assuntos encontrados nela. Faz mais sentido quando você imprime na rua porque ela pode dar mais força para as histórias, como a adoção de animais ou bullying, por exemplo", explica Barros.

Apesar de ter sido pintado no fim de 2018, seu livro de rua ainda pode ser lido e "as ilustrações estão bem boas de ver", garante. Seu primeiro trabalho (em papel) é sobre um menino que tem o poder da invisibilidade.

Mural do livro de rua "O Menino Invisível", em Brasília - Divulgação - Divulgação
Mural do livro de rua "O Menino Invisível", em Brasília
Imagem: Divulgação

O personagem Mino é uma espécie de super-herói urbano que passa despercebido por quem cruza seu caminho. As pessoas fingem não ver o garoto, assim como a incompreendida arte de rua, mas sua história está ali, nas paredes, sob marquises de qualquer metrópole.

Devido à pandemia de coronavírus, os grafites estão parados, mas Hugo garante que já tem três livros prontos para serem lançados. "Não faria sentido nesse momento estimular a aglomeração de pessoas", explica.

Assim como o protagonista da sua obra recém-lançada, o escritor, "que não gosta muito de ser o centro das atenções", também se deu conta que ser invisível não era tão bom assim. Ele queria mesmo era escrever livros tradicionais, daqueles com direitos adquiridos por uma editora e história com cheiro de recém-impressa, mas os repetidos "nãos" e uma certa resistência à auto-publicação motivaram o escritor a criar uma biblioteca a céu aberto.

O escritor Hugo Barros, autor de "O Menino Invisível" - Divulgação - Divulgação
O escritor Hugo Barros, autor de "O Menino Invisível"
Imagem: Divulgação

Se os livros também podem ser livros como em um ebook, por que não poderiam ser em um muro? Hugo encontrou nas ruas a alternativa, mas por (muito) pouco seu texto não vira livro.

Ao inscrever sua obra na Agência Brasileira do ISBN, onde é criada uma sequência numérica global com dados de um texto a ser publicado, recebeu a seguinte resposta: "O ISBN é atribuído somente para livros."

Mas como Hugo é tão insistente quanto seu Mino, a sentença foi respondida com um pedido de reanálise. Coincidentemente, a decisão positiva viria no mesmo dia em que o escritor dava uma palestra na Bienal do Livro, em São Paulo.

"O projeto traz não só a democratização da leitura, mas também o tema da invisibilidade, do enxergar o que está ao redor. Tocou lá no fundo da alma", descreve Aline Monteiro, responsável pelo marketing de conteúdo da editora Peirópolis, que acaba de publicar o primeiro livro de Hugo Barros.

Desenhos do livro de rua "O Menino Invisível", em Brasília - Divulgação - Divulgação
Desenhos do livro de rua "O Menino Invisível", em Brasília
Imagem: Divulgação

Parte da renda arrecadada com a venda do livro será destinada ao Projeto Quixote, dedicado ao auxílio clínico e pedagógico de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

Mesmo com o tom social da história, cujo ponto de virada não vou revelar para não dar spoiler, "O menino invisível" prende o leitor com suas páginas coloridas e frases dinâmicas postas em versos que, assim como a vida de Mino, nem sempre rimam.

A parceria com Camilla Santos, o verdadeiro nome da jovem grafiteira que ilustra a história, veio das observações de murais que Hugo ia encontrado nas ruas de Brasília. "Siren não tinha traços infantis. Busco os grafiteiros que não fazem trabalhos para crianças nem que adaptem seus traços exclusivamente para livros", descreve.

A grafiteira Siren fez as artes do livro de rua "O Menino Invisível" - Divulgação - Divulgação
A grafiteira Siren fez as artes do livro de rua "O Menino Invisível"
Imagem: Divulgação

"Eu acredito no poder das cores", descreve Camilla, que também é formada em design gráfico, em entrevista para a TV Justiça na época do lançamento do livro grafitado.

Seus traços dinâmicos de cores fortes dão agilidade a esse livro que tem a rua como cenário e leva o leitor a todos os mundos imaginados pelo protagonista. Do pega-pega invisível ao banho de chafariz no meio da praça, tudo é possível para ele e para seu criador, que até inventou de fazer livro de rua.