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Cotidiano da pandemia | Professora coloca deveres em 'varal' para alunos não ficarem sem estudar em MG

Cotidiano da pandemia | Professora coloca deveres em 'varal' para alunos não ficarem sem estudar em MG

Em meio a iniciativas para alunos estudarem por aplicativos e sites, em Piranguinho (MG), a 439km de Belo Horizonte, uma professora do ensino fundamental encontrou uma alternativa inusitada. As atividades escolares estão sendo colocadas em sacolas plásticas e penduradas numa espécie de varal improvisado na grade da casa dela.

Desde ontem, os pais dos estudantes vão até lá e buscam o material, sem ter contato com a professora Andréia Maria Gomes Machado, para evitar o risco de propagação do novo coronavírus. No interior das sacolas, estão os exercícios de reforço do que já foi visto em salas de aula esse ano antes da paralisação por causa da pandemia.

Lecionando há 30 anos, ela é professora do 5º ano do ensino fundamental da escola municipal Almerinda Valente de Lima, na cidade de 9 mil habitantes. Ao UOL ela contou que sempre gostou de dar "algum diferencial para a vida dos alunos".

Agora, decidiu trabalhar de casa e não deixar que os alunos, mesmo os da zona rural, fiquem semanas e mais semanas sem estudar.

Fiquei pensando nos meus alunos com essa situação toda. Eles não têm condições de estudar sozinhos, sem um apoio escolar. A minha intenção é dar atividades para eles não ficarem ociosos

A novidade foi comunicada aos pais na quinta-feira passada. Na sexta, uma hora depois de ela deixar as atividades no "varal", sete já haviam buscado. De ontem para hoje, outros dez pegaram o material para que os filhos pudessem estudar em casa. "Os pais abraçaram a causa".

Ao conversar com os responsáveis pelas crianças, Andréia lembrou que não poderia ter contato com eles, até porque ela mora com a mãe, que é idosa. "Eu pedi que não tivéssemos contato físico. Estou me protegendo e também a minha mãe idosa".

Silvana Marlene da Silva Coelho mora na zona rural e estava tentando ajudar a filha Renata em algumas disciplinas da escola. Mas ela sabe que não era suficiente. Agora, quando vai fazer compras essenciais, ela aproveita para pegar o material elaborado pela professora. "É uma coisa criativa que ela fez, ela deixa na grade da casa dela. E na hora que a gente vai resolver alguma coisa na cidade, a gente pega".

As embalagens plásticas são de um supermercado. Andréia afirma que no local os funcionários usam luvas e colocam todas as sacolas numa só, para evitar contato externo. Ela explica que, ao chegar em casa, adota todos os cuidados de higiene recomendados pelo Ministério da Saúde para, então, disponibilizar o material didático.

A rotina da professora agora é montar as atividades no seu computador, imprimi-las por lá mesmo e colocá-las, individualmente, nas 20 sacolas, número de alunos de sua turma.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Andréia pediu aos responsáveis que não vão até a casa dela apenas para buscar os exercícios escolares, evitando, assim, que saiam sem necessidade. A orientação foi que eles aproveitem quando forem fazer compras essenciais, como em mercados e farmácias, já que ela mora muito perto desses estabelecimentos. "Pedi que não viessem só para pegar as atividades, mas quando precisassem".

Para a dona de casa Sônia Dias Marques Mota, mãe de Guilherme, que é autista, manter a rotina do filho é fundamental. Por sua vez, a professora adapta as atividades para o garoto, de 10 anos. "Por não falar, Guilherme sentiu muito não ir para a escola". Agora, com as atividades em casa, ela percebe uma evolução no comportamento da criança. "Ele está muito mais tranquilo agora. Antes de ela ter essa ideia, ele pegava o caderno e ficava rabiscando até rasgar as folhas. Agora ele está na maior felicidade".

O trabalho não vai contar como nota no boletim, explica a professora. Os pais deverão enviar fotos das atividades já realizadas pelos filhos para Andréia corrigi-las. "Não terá conteúdo novo para não prejudicar o aluno que não possa vir buscar. A gente não está repondo aula com isso". Segundo conta, a secretaria municipal de Educação concordou e elogiou a iniciativa.

O "varal" escolar tem ajudado o carteiro Renato Ribeiro da Silva, para quem é difícil fazer o trabalho do professor em casa. Na opinião dele, a ideia ajuda a dar continuidade ao que a filha, Maria Rita (foto), de 10 anos, estava aprendendo em sala de aula. "Acho a iniciativa muito boa. Mostra a preocupação delas com as crianças neste momento pelo qual estamos passando. Fico grato pela atitude dela. Por mais que a gente tente fazer as atividades, não sabemos como".