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Atrito na CNN | Advogadas saem em defesa de Prioli: 'Lidaram mal porque ela fez sucesso'

Atrito na CNN | Advogadas saem em defesa de Prioli: 'Lidaram mal porque ela fez sucesso'

Advogada criminalista com 27 anos de carreira, Claudia Bernasconi diz ter se incomodado desde o primeiro dia em que assistiu à amiga Gabriela Prioli, também advogada e professora de Direito Penal, na televisão, como comentarista do programa "Grande Debate", na CNN. Chegou a dizer a Gabriela, com quem trabalhou de 2012 a 2017 em um grande escritório paulistano, que, ao ser colocada para dialogar com pessoas que não tinham seu grau de conhecimento e informação, o debate saía perdendo.

A indignação de Claudia foi crescendo com as constantes interrupções e constrangimentos aos quais Gabriela era submetida diariamente. Desconforto que era dividido com outras colegas de profissão em um grupo de WhatsApp com 182 juristas mulheres de todo o país, com o inequívoco nome de "Advogadas".

Depois do bate-boca ao vivo na sexta-feira (24) e de um post de Gabriela sugerindo que sairia da CNN, no domingo (26), o grupo concordou que apoiar Gabriela era uma maneira de combater o que elas próprias vivem diariamente, com juízes, promotores, procuradores e colegas de profissão.

"Cansei de participar de audiência em que o juiz completava minhas perguntas ou me interrompia. Era o tempo todo: 'Excelência, posso concluir?'", diz Claudia.

Na segunda-feira (30), elas lançaram uma nota de apoio à comentarista, com críticas duras aos colegas de bancada e à emissora. A nota é assinada por 332 advogados — também há homens —, entre os quais nomes dos mais prestigiosos da advocacia brasileira.

"Sucesso fez homens quererem tirar o espaço dela"

Foi Claudia que redigiu a nota, junto com outras duas colegas advogadas, e submeteu o texto para a aprovação dos outros signatários.

"Gabriela sempre manteve sua postura comprometida argumentando com base em dados. Infelizmente, os dois debatedores escolhidos para o quadro não apresentaram os mesmos predicados. Nem sequer o intermediador cumpriu esse papel: não só não evitou que o outro debatedor interrompesse sua fala como, ainda, passou a ser protagonista das interrupcões", diz o texto.

"Me impressionou a emissora, a CNN, não cobrar do debatedor [Thomé Abduch] que tivesse conhecimento técnico ou aprofundado. Ele chegava com as frases feitas, como se tivesse tirado de grupo de WhatsApp da família. Não havia uma pessoa que jogava no mesmo nível que ela", diz Claudia, pontuando que estar no "nível dela" não é uma tarefa fácil. "Gabriela é brilhante, articulada, sabe se colocar. Digo que nasceu para fazer o que está fazendo agora."

Para Claudia, o sucesso da comentarista foi o que fez os homens da bancada chegarem ao destempero. "Quanto mais ela foi fazendo sucesso, mais eles foram querendo tirar o espaço dela, que estava aparecendo mais do que todo mundo. É como se estivessem dizendo: "Ah, você não vai fazer mais sucesso do que eu."

"Excelência, posso concluir?"

As constantes interrupções vindas de todos os lados no cotidiano das advogadas é uma das maiores reclamações das integrantes do grupo. O que foi visto na CNN é, também, rotineiro para juristas de todo o país.

"Eu me lembro de muitas vezes em que fui fazer audiências, começava uma pergunta e o juiz completava o que eu ia dizer. Como se precisasse da ajuda dele para conseguir concluir. Acho que pensava: 'Vou socorrer essa coitada'", diz.

Além disso, o grupo reivindica mais mulheres em cursos, eventos públicos, seminários e palestras em que haja debates envolvendo juristas. "Recentemente, fizemos uma nota direcionada à organização de um seminário em que todos os palestrantes eram homens. Um evento grande, aqui em São Paulo. Se não tiver mulher falando, não vai ter mulher assistindo."

Além disso, questionam o fato de a imprensa procurar, na maioria das vezes, advogados homens para dar entrevistas. "Mesmo em áreas com mais mulheres, como Direito de Família, são sempre os mesmos advogados sendo entrevistados." Por fim, abordam ainda o fato de na maioria dos grandes escritórios do país, quase que a totalidade dos sócios serem homens.

"Já está fora de moda tratar ou ter relação profissional diferente com uma pessoa só porque ela é mulher. A gente não deveria nem estar falando disso, mas infelizmente é contra isso que a gente luta. Queremos que ouçam o que temos pra dizer. E vão ouvir."

Escritório com sócias mulheres

Claudia saiu de um conceituado escritório em 2017 para se dedicar mais aos filhos, então com 10 e 11 anos. "Queria viver a maternidade e não conseguia", afirma. Depois, passou a trabalhar em outro, onde há mais sócias do que sócios — dos seis, cinco são mulheres.

Por ter mais colegas, percebe mais naturalidade ao tratar questões óbvias do universo feminino, como a maternidade, que infelizmente ainda pesa mais sobre as mães. "Se preciso sair porque meu filho está doente ou tenho um problema em casa, todo mundo entende porque também vivem a jornada dupla", diz.

Também prefere estar rodeada de pessoas que entendem suas angústias femininas. "Podemos reclamar sobre a falta de espaço que temos e nos unir para lutar contra. Porque percebi que é isso mesmo, uma luta."