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Antero Greco | Neymar, seleção e Copa América: agora ou nunca

Antero Greco | Neymar, seleção e Copa América: agora ou nunca

Caro amigo, não sei se você gosta ou não do Neymar. Talvez até esteja entupido de consumir notícias e opiniões a respeito dele. Ou ficou com o moço entalado na garganta desde as rolanças, os rodopios e as encenações no Mundial da Rússia. Por isso, não deseja vê-lo nem pintado de ouro, como dizia uma tia minha, dona de uma língua ferina que Deus me livre.

Se você tiver alguma rejeição ao astro, entendo e não o recrimino. Mas Neymar é tema inevitável, quando se trata de seleção. E, por mais que se critique, há tendência de que se torne centro de atenções da trupe chamada por Tite para a Copa América. Para o bem ou para o mal, muito do que o Brasil fizer diante de rivais da região passará pelo camisa 10.

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Não nego que dias atrás, na convocação para o torneio, alinhei com os que consideravam desnecessária a presença do rapaz neste momento. Nem tanto pelo talento, que tem de sobra e jorra pelo ladrão. Defendia a exclusão como medida pedagógica, uma espécie de puxão de orelhas pelo cascudo que desferiu num torcedor na final da Copa da França. O episódio foi grotesco e pegou mal pra caramba no mundo todo; molecagem rasteira.

Mudei de opinião. Sim, por se tratar de Neymar e não de um boleiro qualquer. Calma, por favor, não me cornete ainda. Tenha um pingo de paciência para eu expor minhas razões. Depois, mande ver nos comentários logo abaixo...

É evidente que não apoio o que fez. Para início de conversa, não deveria ter brigado. Pior: arrumou treta de jeito feio e covarde. Feio, porque toda a turma do PSG foi xingada pelo mesmo cidadão e ninguém lhe deu bola; só o nosso patrício caiu na pilha. Tremendo vacilo. Covarde, pois bateu e se mandou. Pelo menos nas brigas de rua no Bom Retiro, ou no colégio, a gente dava e levava sopapos, frente a frente; quem corresse perdia moral e ficava mal visto.

Tenho certeza de que Tite se irritou com isso. Imagino que a vontade era a de mandá-lo catar coquinho. Só não o fez por ter consciência da importância para o time. Gente, não há como driblar o óbvio: a seleção precisa do Neymar. "Ainda". Por que o advérbio entre aspas? De novo, pela qualidade do futebol dele e a ausência de opções do mesmo quilate ou mais alto. Reconhecer o valor de jogador muito acima da média não é demérito nem sinal de pulso fraco.

Ou você acha que Coutinho, Gabriel Jesus, Neres, Firmino, Everton, Richarlison, Paquetá joguem mais do que Neymar? Queria todos eles no meu time, porém nenhum é Neymar. Com o tempo, alguns bem jovens podem se tornar estrelas de primeiríssima grandeza; ainda não são e estão mais para satélites a girar em torno do astro principal. Tite sabe disso, como sabia Muricy, quando dirigia o Santos e me disse, numa entrevista em 2010: "Um cara desses me dará um título". E deu: a Taça Libertadores de 2011 teve as digitais do então franzino titular.

Tite, como seus antecessores Mano, Felipão, Dunga, se rende a um artista, e ao fato de não ter outros protagonistas nem líderes. O último felizardo foi Felipão versão 2002, que contou com Marcos, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e outros de grosso calibre, decisivos dentro e fora de campo. Vários estiveram também em 2006, já sem muito empenho. Em 2010, 14 e 18 a seleção foi um deserto de homens e ideias, com a licença da frase de Monteiro Lobato.

Neymar já enveredou pelo ciclo da maturidade na carreira. Com 27 anos e meio, não é mais o "menino", embora muitas vezes se comporte como tal, e se encaminha para o vai ou racha sem volta. Nesse estágio, a maioria dos gigantes do futebol costuma ter fama, fortuna e conquistas bem consolidadas. Neymar já acumulou bastante; no entanto, não é ainda (olha o advérbio outra vez) Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Romário, para ficar em ídolos domésticos reverenciados por plateias de todos os continentes. Não é nem Cristiano, tampouco Messi, monstros da atualidade.

Para profissional vaidoso como Neymar - o que não é pecado -, a esta altura não ser reconhecido como "melhor do mundo", ou não ser campeão mundial, incomoda. Não adianta atrair holofotes com cortes de cabelo moderninhos, festas suntuosas, iates, jatinhos, publicidade. A ostentação até faz parte da rotina das celebridades, e quem não gostaria dessa vida boa? Mas sinais de riqueza não afagam o ego como os prêmios e os troféus, individuais ou coletivos.

Talvez Tite aposte na força do amor-próprio de Neymar para fazê-lo entender como a Copa América, as próximas Eliminatórias e o Mundial do Qatar significam oportunidades derradeiras para ele ocupar a prateleira mais alta dos gênios da bola. Se desperdiçar essas chances, tchau tchau (como diz o Gerd Wenzel) para o sonho de ser mito como os que citei acima. Ao se aposentar, certamente estará milionário - e que Deus o abençoe -, só que a carregar o cartaz: "Poderia ter sido muito mais". Da mesma maneira, o professor se depara com o desafio de provar que consegue fazer a cabeça de seu principal pupilo. Se falhar, o desgaste derreterá a imagem de disciplinador, moderador, estrategista etc. e tal.

Neymar, é agora ou nunca. De "quase" o futebol está cheio. Que não se torne só mais um.