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A PRAÇA DE GUERRA – Por Rui Leitão

A PRAÇA DE GUERRA – Por Rui Leitão

Na manhã do dia quatro de abril de 1968 estudantes e populares se dirigiam para a Catedral, hoje Basílica Nossa Senhora das Neves, a fim de assistirem a missa de sétimo dia em sufrágio da alma do estudante Édson Luís, vitimado pela barbárie da polícia militar carioca. No caminho testemunhavam a disposição do governo em reagir contra qualquer manifestação após a celebração da missa. Policiais fortemente armados, colocavam-se em pontos estratégicos do centro da cidade, principalmente nas proximidades igreja.

A missa foi iniciada pontualmente às dez horas, pelo padre Juarez Benício, cujo sermão proferido durou aproximadamente quarenta e cinco minutos, no elogio fúnebre do estudante assassinado. A Catedral estava totalmente lotada. O respeitoso silêncio que ali se verificava, durante todo o ato litúrgico, e o semblante, embora tenso, mas calmo, de todos os participantes, não diriam que estariam muito próximos de enfrentarem a mais violenta batalha de ruas já verificada na história da Paraíba.

Concluída a cerimônia religiosa, os universitários e secundaristas, ao saírem, aglomeraram-se em frente à Catedral Metropolitana, e deram início a uma passeata em direção à Avenida Duque de Caxias, em que pese o forte aparato policial montado pelo governo. A guarnição militar, armada de baionetas, cassetetes e gás lacrimogênio, organizou-se para enfrentar os manifestantes com o propósito de inibir o ato público, obedecendo à proibição baixada por portaria da Secretaria de Segurança Pública, divulgada naquela manhã, logo cedo.

Aos gritos de “assassinos”, “canalhas”, “traidores” e “abaixo a ditadura”, caminharam pela Avenida General Osório, até a esquina Biblioteca Pública do Estado, local em que promoveram o primeiro comício relâmpago. Dali seguindo para a Duque de Caxias. Avisado da caminhada estudantil o comando da Polícia Militar isolou o Ponto de Cem Réis, onde estavam estacionadas três viaturas com vários militares. Ficaram na expectativa da chegada da passeata ao local em que se instalaram de prontidão. Sem se intimidarem com a ameaça policial, os manifestantes avançaram pela Duque de Caxias, a partir da sede do Esporte Clube Cabo Branco, cantando o Hino Nacional.

O comércio fechou as portas prevendo os distúrbios que inevitavelmente estavam prestes a acontecer. Além das tropas de choque já instaladas no Ponto de Cem Réis, caminhões da polícia se posicionaram na avenida em que caminhavam os estudantes. Os policiais desceram dos caminhões de armas em punho e rumaram para o confronto com a passeata. O Ponto de Cem Réis transformou-se numa praça de guerra, com os policiais promovendo espancamentos de forma generalizada. Instalou-se o pânico. Correrias e gritos davam ao ambiente um clima de luta desigual.

Os policiais fortemente armados e os estudantes sem qualquer condição de reagir ao ataque. Prisões foram efetuadas. Os jornais da época falavam em sete detenções, em sua maioria constituída de menores. Depois do confronto os estudantes se encaminharam para o Clube do Estudante Universitário, no local do atual restaurante Cassino da Lagoa. Concentrados no que chamavam de “território livre”, alternavam-se no uso da palavra, repudiando a forma brutal com que foram recebidos pela Policia Militar. O entorno do Restaurante Universitário foi ocupado por forças policiais.

Além dos discursos inflamados, os hinos Nacional, da Independência e da Bandeira, eram tocados pelo serviço de som. Decidiram só dialogar com o governo quando fossem retiradas das ruas as tropas policiais. O que só veio a acontecer no dia dez de abril.