Esportes

Marcela Parsons | Bolsonaro nomeia esposa de cartola investigada em caso de farra de passagens

A técnica de adestramento paraolímpico Marcela Parsons é a nova (e primeira) secretária nacional do paradesporto. A pasta foi criada em maio e aguardava a nomeação de Marcela, como havia publicado o Olhar Olímpico há mais de dois meses. Ela é esposa de Andrew Parsons, presidente do Comitê Paraolímpico Internacional (IPC) e, logo, maior autoridade mundial do movimento paraolímpico.

Andrew, que foi de estagiário de jornalismo a presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), chegou à presidência do IPC em 2017. A principal mancha pública na sua gestão frente ao CPB envolve exatamente a esposa. Em 2017, o UOL Esporte revelou que Marcela fez diversas viagens internacionais como primeira-dama, acompanhando Andrew, bancadas com dinheiro público. Esse tema ainda não teve um acórdão definitivo do Tribunal de Contas da União (TCU).

Em outro acórdão, relativo à CBH (Confederação Brasileira de Hipismo), o TCU multou Marcela em R$ 2 mil. Ela era a responsável pela gestão de convênios da confederação com o CPB enquanto o marido dela era responsável por repassar recursos da Lei Piva à CBH e, consequentemente, à esposa.

A Secretaria Nacional do Paradesporto, subordinada à Secretaria Especial do Esporte, era uma ideia defendida pelo então ministro da Cidadania Osmar Terra (MDB), em aceno à primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ela tem trabalho social junto à comunidade surda, que agora busca reconhecimento junto ao movimento paraolímpico.

No passado, os surdos rejeitaram fazer parte desse movimento e, por isso, até hoje, não existem nos Jogos Paraolímpicos competições destinadas a eles. Atualmente, os surdos têm seu próprio evento internacional, a Surdolimpíada, mas as entidades que representam o Brasil não têm financiamento federal contínuo, como as confederações olímpicas e paraolímpicas. A ideia de criar uma secretaria do paradesporto no governo federal ocuparia essa lacuna.

"No esporte paralímpico de alto rendimento, o Brasil já é uma potência. Nosso olhar, então, será mais voltado a pessoas com outros tipos de deficiência, como autistas, surdos e pessoas com deficiências intelectuais ou síndromes, de modo que elas também possam ter mais acesso ao esporte e, com isso, mais qualidade de vida", disse Marcela ao site do governo federal.

A criação da secretaria saiu do papel em 21 de maio, mas o Olhar Olímpico apurou que, antes disso, Marcela já era apresentada como nova secretária. Diretora de Adestramento Paraequestre da CBH, ela tem longo currículo na área de equoterapia. À espera da nomeação, ela foi exonerada do cargo que ocupava no governo do Distrito Federal. Era assessora da diretoria de eventos do Estádio Mané Garrincha, ainda que, na prática, atuasse como interlocutora com o movimento paraolímpico.

Pelo Twitter, o deputado federal Luiz Lima (PSL), ex-atleta olímpico e fortemente aliado ao presidente (sem partido), criticou a nomeação. "Lamento muito que o Ministério da Cidadania não tenha percebido a importância de se nomear um atleta paralímpico para ocupar pela primeira vez o cargo de Secretário Nacional de Paradesporto. Triste o país que precisa de heróis. Pior o país que não reconhece seus heróis", reclamou.

O governo federal tem um ex-atleta paraolímpico em um cargo que, comparativamente, é inclusive mais alto do que o de Marcela. Trata-se de Cláudio Panoeiro, secretário nacional de Justiça, primeiro nadador cego a disputar uma Paraolimpíada. Ele, porém, seguiu carreira como advogado da União.