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Gestão de herdeiro das Casas Bahia começa com turbulência na Ferroviária

Vinte e quatro dias. Esse foi o tempo que o técnico Marcelo Vilar ficou à frente da Ferroviária. Trazido pelo novo acionista do clube, um dos herdeiros das Casas Bahia, Saul Klein, Vilar chegou sob protestos da torcida da Ferroviária, que torcia pela permanência de Vinicius Munhoz, hoje técnico interino do Red Bull Bragantino.

Vilar não chegou a comandar o time por uma partida oficial. Ao todo, forma quatro amistosos, contra Sertãozinho, Barretos e duas vezes contra o Novorizontino, com um aproveitamento de 50%, vencendo dois e perdendo dois testes. "Nem eu entendi o que aconteceu", disse o técnico à reportagem do UOL.

Dentro do vestiário, porém, havia clara insatisfação com o treinador. Os métodos usados por Vilar nos treinamentos seriam bem ultrapassados, principalmente se comparados ao estilo de trabalho de Munhoz.

Menos de 24 horas apsós a demissão, a Ferroviária já tinha um novo treinador. Sérgio Soares, que comandou o ABC (RN) na última temporada, assinou contrato até o final do ano. Com passagens por Santo André, Grêmio Barueri, Juventus (SP), Paraná, São Caetano, Ponte Preta, Athlético-PR, Cerezo Osaka, do Japão, entre tantos outros, Soares traz, no currículo, os títulos dos Campeonatos Goiano, Baiano e Cearense.

Marcelo Vilar foi anunciado em 26 de dezembro na Ferroviária. Já não está mais lá - Divulgação/Ferroviária S.A.
Marcelo Vilar foi anunciado em 26 de dezembro na Ferroviária. Já não está mais lá
Imagem: Divulgação/Ferroviária S.A.

"Temos o Paulistão, no primeiro momento, Copa do Brasil e Série D do Brasileiro, que é o principal objetivo do clube, conseguindo um acesso para a Série C. Sei da responsabilidade, mas com o apoio da cidade, poderemos fazer um bom campeonato juntos", afirmou o Soares, que passa a treinar a equipe restando cinco dias para a estreia no Paulista contra o Mirassol.

A saída de Vilar e a chegada de Soares não foram as únicas bombas deste início de gestão de Saul Klein na Ferroviária.

Primeiro de muitos

Quando pisou pela primeira vez em Araraquara, em dezembro passado Saul Klein foi surpreendido quando informado do pedido de demissão do pentacampeão mundial Roque Júnior, que atuava como diretor de futebol. "Ele trabalha pra Ferroviária, pra mim ele não falou nada", disse o herdeiro das Casas Bahia. Um forte ruído de comunicação entre os membros da antiga diretoria e o staff de Klein começava a propalar. Roque Júnior pediu demissão porque teria perdido poder na gestão do clube. À época, Roque também não concordou com o afastamento de Vinícius Munhoz, trazido por ele à Ferroviária.

Com a saída de Roque Júnior, Klein foi buscar um velho conhecido do torcedor de Araraquara. O executivo de futebol, Pedro Martins, que estava na vice-presidência de competições da Federação Paulista de Futebol (FPF). Sua primeira passagem pela Ferroviária foi entre 2015 e 2018. Jovem, com graduação em administração de empresas e MBA em Football Industries pela Universidade de Liverpool, Martins tem passagens na gestão de Athletico Paranense, Olé Brasil e Queens Park Rangers (Inglaterra).

Sua primeira passagem pela Ferroviária ficou marcada pela reestruturação da gestão do clube. Como resultado, a volta à elite do futebol paulista depois de 20 anos. Um interlocutor de Saul Klein disse que ele estava trazendo Pedro Martins para 'apagar o incêndio' das saídas de Roque Júnior e Vinícius Munhoz.

Klein conhece terreno em Araraquara ao lado do prefeito Edinho Silva (PT), à sua direita - Divulgação/Prefeitura de Araraquara
Klein conhece terreno em Araraquara ao lado do prefeito Edinho Silva (PT), à sua direita
Imagem: Divulgação/Prefeitura de Araraquara

A sombra de Pelaipe

Mas a calmaria parece passar longe da gestão de Klein. Circula por Araraquara a informação de que o ex-gerente de futebol do Flamengo, Paulo Pelaipe, estaria chegando à Ferroviária. Pelaipe teria sido, inclusive, o responsável pela demissão de Marcelo Villar e a contratação de Sérgio Soares. A onda de boatos foi tão forte que a Ferroviária emitiu uma nota oficial negando o fato: "A Ferroviária Futebol S/A vem desmentir a especulação de que teria iniciado negociações ou contratado Paulo Pelaipe para trabalhar na instituição", diz o comunicado.

Coincidência ou não, Paulo Pelaipe assumiu oficialmente, como diretor executivo, o São Caetano, nesta sexta-feira. A nota oficial da contratação do ex-cartola do Flamengo, nas redes sociais do Azulão, faz questão de frisar que Pelaipe exercerá sua função "apenas" no São Caetano.
Conforme apurou o UOL em reportagem em 08 de dezembro, Saul Klein ainda mantém forte influência sobre o São Caetano. Pagou os salários atrasados da equipe no ano passado e, depois do afastamento de Nairo Ferreira, voltou a gerir o time de forma indireta. Klein e suas empresas não têm qualquer tipo de vínculo com o São Caetano.

Do ponto de vista legal, ele é apenas um doador informal. Mesmo assim, a possibilidade de a equipe disputar a mesma divisão que a Ferroviária no futuro pode ficar comprometida —os dois times estão classificados para a série D do Campeonato Brasileiro. A Lei Pelé prevê que um mesmo grupo econômico não pode ter dois clubes em um mesmo campeonato.

O São Caetano tem funcionado como uma espécie de fonte para a Ferroviária. Além do recém-demitido técnico Marcelo Vilar, seu auxiliar e o preparador de goleiros, a Ferroviária 'contratou' oito jogadores do ABC. Até jogadores machucados estariam indo se recuperar na Ferroviária. Este cenário fortaleceria a tese de que Paulo Pelaipe ficaria vinculado ao Azulão, mas atuaria diretamente nos dois clubes comandados financeiramente por Klein.

Com todas estas mudanças, a Ferroviária sai atrás de seus concorrentes pelo Paulista. O elenco foi montado, na maioria, por Vinícius Munhoz. Fez toda a preparação com Marcelo Vilar. E agora, Sérgio Soares tem a missão de controlar o incêndio. Alheio às confusões que gerou, o excêntrico Saul Klein não foi mais visto em Araraquara. Sua presença é esperada para a partida de estreia, na próxima quinta-feira, contra o Mirassol, em Araraquara. Com uma fortuna avaliada em cerca de 5 bilhões de reais, o herdeiro das Casas Bahia não parece muito preocupado com os acontecimentos.