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Diogo Silva: Dia Olímpico nunca teve tanto significado quanto em 2020

Há dois dias, comemoramos o Dia Olímpico. É uma data que normalmente chega carregada de discursos emocionados de organizações esportivas olímpicas. O que vimos foram lives, fotos comemorativas no Instagram e no Twitter, algumas palavras bonitas e purpurina ao céu. Só que dessa vez esse dia olímpico chega em um momento diferente e muito mais interessante.

Nunca um ano foi tão desafiador para a sociedade e para as organizações esportivas como 2020.

É o ano em que:

Uma pandemia global chamada coronavírus matou (até o momento) mais de 465,7 mil pessoas pelo mundo, com quase nove milhões de casos. Foi essa pandemia que obrigou os Jogos Olímpicos de Tóquio, que seriam realizados entre os dias 23 de julho e 9 de agosto, e os Jogos Paralímpicos, entre 24 de agosto e 5 de setembro, a serem adiados.

Uma onda de manifestações contra o racismo, que começa nos Estados Unidos por conta da violência policial contra a população negra e o assassinato de Geoge Floyd por um policial branco, toma conta do mundo. Essa mesma onda passa por Brasil, onde lamentamos o assassinato de João Pedro, e vai à França, ao Reino Unido, à Bélgica, à Alemanha, à Áustria, à Tunísia, à Espanha, à Portugal e ao Canadá. E invadem o esporte.

Grandes astros do esporte, como nunca, apoiam o movimento negro. São nomes como Lewis Hamilton, da Fórmula 1, Serena Willians, do tênis, Lebron James, do basquete, e até Michael Jordan, o grande astro da NBA, que doou 100 milhões de dólares, cerca de R$ 500 milhões, por organizações que lutam por igualdade racial nos Estados Unidos.

Grandes organizações esportivas passam a ser pressionadas a repensar seus modelos administrativos. Foi o que aconteceu com Thomas Back, presidente do Comitê Olímpico Internacional, que voltou atrás no pedido de punições a atos políticos durante os Jogos Olímpicos, repensando o artigo 50 da Carta Olímpica.

Pedidos de desculpas públicos e reversões de punições dadas a atletas negros que se manifestaram contra o racismo começam a ser feitos. Foi o que aconteceu com o jogador de futebol americano Collin Kaepernick, o primeiro a ajoelhar contra a violência policial contra negros. Ou com a lançadora de martelo Gwen Berry, ouro no Pan-Americano de Lima em 2019 que foi punida com 12 meses de afastamento das competições por ter levantado o punho contra a violência policial durante o hino americano — ela recebeu um pedido de desculpas formal da CEO do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, Sarah Hirshland, assim como o esgrimista branco Race Imboden (que se ajoelhou no hino, também no Pan de Lima-2019).

O mundo do futebol desce do pedestal e participa dos protestos. Jogadores como o lateral Marcelo, do Real Madri, e o atacante Jadon Sancho, do Borussia Dortmund, se ajoelharam. Assim como fizeram os jogadores de Aston Villa x Sheffield United e Manchester City x Arsenal.

Torcidas organizadas do futebol paulista, como as de São Paulo, Palmeiras, Santos e Corinthians, se unem em manifestações a favor da democracia.

No Brasil, nascem o Esporte pela Democracia e a Olympic Global Alliance, duas frentes políticas e esportivas lideradas por atletas e ex-atletas para debaterem temas e pautas antirracista e antifascista, compreendendo a alienação de muitos atletas brasileiros que não se manifestam a favor da democracia e da humanidade. E sabendo que muitos apoiam governos fascistas, como o de Bolsonaro.

Foi realizado o Primeiro Fórum Nacional das Comissões dos Atletas, com mais de 90 representantes dos atletas que fazem parte das comissões esportivas dentro das confederações brasileiras e do comitê olímpico brasileiro, um marco histórico do esporte brasileiro, que nunca tinha reunido tantos atletas para incentivar, comunicar e motivar.

Como diz Mano Brown em sua música Vida Loca part 1, "tenha fé porque até no lixão nasce flor". Dentro dessa esperança, o Dia Olímpico nunca teve tanto significado quanto nesse ano de 2020.