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Por trabalho social | Simone dá adeus à bateria da Dragões e é premiada em Paris

Por trabalho social | Simone dá adeus à bateria da Dragões e é premiada em Paris

Em 2019, Simone Sampaio viajou oito vezes para Nova York e, no mês de abril, o carimbo em seu passaporte em solo europeu está garantido. A rainha de bateria da Dragões vai dar uma passadinha em Paris, na França, para ser reconhecida no Portuguese Brazilian Awards, prêmio dado a brasileiros e portugueses que se destacam em algo que fazem. No caso dela, o trabalho social que realiza em várias localidades da cidade de São Paulo.

"Não tenho minha ONG, mas é só por enquanto. Trabalho com crianças e também com idosos. Isso é uma necessidade minha por gratidão ao universo. Cada um sabe a história que teve. Cada um sabe de onde veio. Eu sempre sonhei muito e continuo sonhando porque é isso que me move. Toda vez que eu exercito o olhar para alguém e posso contribuir com alguma coisa, principalmente com as minhas crianças, eu sinto como se fosse a minha oração", diz.

A ex-participante de A Fazenda (edição de 2012 do reality da RecordTV) deve fazer sua última aparição como rainha de bateria da Dragões neste ano (a escola é a terceira a desfilar). Em seu último ensaio na quadra, Simone recebeu flores e o presidente pediu que a comunidade desse a ela um presente especial: "Que ela possa voltar como rainha de bateria no desfile de sábado (29), na apresentação das campeãs. E que sejamos os últimos a desfilar, já com o dia claro", pediu Tomate, ovacionado pela plateia.

Há nove anos na agremiação, Simone ficou emocionadíssima. Ainda mais quando o mestre-sala da escola lhe concedeu a honra de ser fotografada com o pavilhão — uma das regras é que o pavilhão só pode ser tocado pela porta-bandeira. "Ela é a primeira rainha de bateria a fazer isso. E olha como ela segura o pavilhão, parece um filho! Ela merece essa honra. Ela é maravilhosa. Estamos há muito tempo juntos", diz Rubens de Castro, que ostenta o pavilhão ao lado da porta-bandeira Evelyn Silva.

Trabalho social dura o ano inteiro

Madrinha do Bloco do Fico - bloco de inclusão no bairro do Ipiranga que abraça o Instituto de Cegos Padre Chico -, a jornalista e mestre de cerimônias não faz maratona só no Carnaval. "No Carnaval a gente se diverte, mas durante o resto do ano eu uso os meus amigos, as empresas e meus conhecimentos para ajudar quem tem necessidade", explica ela. O exemplo mais recente disso foi há menos de um mês, durante as enchentes sofridas pela região. "Eu passei uma mensagem via WhatsApp para o pessoal do bloco pedindo cobertores, leite, roupa..."

A lista dos que contam com a assistência resultante do envolvimento de Simone é grande. O Hospital Infantil Darcy Vagas é um deles. Ela organiza a Feijoada dos Artistas em quadras de escola de samba para reverter a verba para os cuidados dos pacientes e para fazer a festa de encerramento do ano. "Faço de tudo para arrecadar verba para a festa de fim de ano. É uma festa muito importante porque é para comemorar a vida. Comemorar mais um ano de luta. Quando uma criança adoece, a família adoece junto. Muitas vezes a mãe vem de outra cidade e deixa os outros filhos lá com o pai. Às vezes nem pai eles têm. Você entra [no hospital], brinca, leva um colorido para a vida delas naquele momento. Eu creio na cura da boa energia, do sorriso. Creio na transformação da energia."

Na lista ainda tem a aldeia Krukutu, em Parelheiros, e mais recentemente fez um trabalho com os índios do Jaraguá. Tem também Heliópolis, onde ela ganhou a faixa de Rainha do bem, e a Casa Maria Maia, em Carapicuíba, grande São Paulo. E cada um ajuda como pode. Em Francisco Morato, por exemplo, não é difícil encontrar carrinhos de sorvete com a imagem da moça estampada. Ela não cobra pela exposição, mas, em compensação, os picolés das crianças do Hospital Infantil estão garantidos no dia da festa. E assim segue o bonde da Simone, como uma grande corrente do bem.

Simone Sampaio no último ensaio da escola, no sábado (15)  - André Lucas/UOL
Simone Sampaio no último ensaio da escola, no sábado (15)
Imagem: André Lucas/UOL

"A minha história me fez ser quem eu sou hoje"

Neta de indígena (por parte de mãe), Simone conta que a avó foi pega de cachorro - antigamente, os brancos mandavam caçar índios e colocavam cachorros atrás deles. "Minha avó era índia e foi pega de cachorro. Meu avô, fazendeiro, se apaixonou por ela e tiveram 14 filhos."

A mãe é baiana e o pai, negro. "Uma mistura bem brasileira", diz ela, que nasceu em Minas Gerais e cresceu na Bahia, sentada em um trator que arava a terra. "Não conto isso como história triste, não. É a minha história e me fez ser quem eu sou hoje."

Simone começou a viajar para Nova York por conta de uma amiga brasileira dona de um restaurante na gringa. Foi levando artistas para se apresentarem, negociava com os produtores e as coisas foram acontecendo. "Não achava que fosse trabalhar com imagem lá fora, mas New Jersey é o Brasil! Lá tem muito trabalho, faço muito vídeo book (um catálogo de moda em vídeo, que é exibido nas lojas). Algumas pessoas falam: 'vai trabalhar para brasileiro?'. Vou. Um trabalho lá paga pode pagar três meses das minhas contas", justifica.

Ela faz um pouco de tudo. E isso é desde novinha. "Sempre quis ter meu próprio dinheirinho. Não tenho vergonha porque no interior as crianças de 9 anos já pegavam na enxada. Fui babá, fiz roupa de boneca para vender. Nunca fui direcionada para uma coisa só. Por isso digo que sou polivalente e aproveito as oportunidades, diz ela, que logo mais abrirá sua primeira loja física de sapatos e bolsas e pretende, ainda nesse ano, lançar produtos de beleza.

Último desfile pela Dragões como rainha de bateria

Para a Rainha das Rainhas, título conquistado em 2000 durante concurso com as rainhas das escolas de São Paulo, a Dragões é a mais feliz das escolas de samba. "Não tem melhor escola para esse enredo. Quando o presidente me chamou para falar, eu chorei. É um presente do universo. É o projeto mais lindo para defender na Avenida", diz ela. O título do enredo é "A Revolução do riso - a arte de subverter o mundo pelo divino poder da alegria".

Simone acredita que "se você quer saúde, não deve focar na doença. Tem de focar na saúde". Sendo assim, o melhor é focar no riso e deixar as mágoas pra lá.