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Bloco de rua em SP | Beatloko leva golpe e desfila em carro emprestado, mas não desiste do rap

Bloco de rua em SP | Beatloko leva golpe e desfila em carro emprestado, mas não desiste do rap

Marcado para começar às 14h de sábado, 22, o Beatloko só saiu às 17h e terminou às 19h —tempo de encerramento determinado pela Secretaria de Cultura, responsável por organizar a folia de rua.

Dos 100 mil foliões esperados, o bloco registrou menos de 50 mil, segundo a Polícia Militar. O contratante levou um golpe do trio elétrico contratado, no valor de R$ 16 mil, e não apareceu com o carro na Avenida Marquês de São Vicente, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Mesmo assim, o DJ Cia, nome importante do rap nacional e um dos responsáveis pela iniciativa, classificou o evento como "perfeito".

"A maior preocupação era o tumulto, o que acaba prejudicando o nosso movimento, ainda mais com as notícias de mortes, brigas, assédio e roubos em outros blocos", disse o produtor musical, conhecido por ser um dos integrantes do grupo de rap paulista RZO.

'É preciso ter estrutura'

Ele espera que no próximo ano o bloco tenha mais visibilidade e oportunidades. "Ideia a gente tem, só não tem investimento. Para trazer o Seu Jorge, o Caetano Veloso, para fazer um som com o Rappin' Hood, é preciso ter uma estrutura. Essas pessoas têm a linguagem e falam com o rap. Não posso abusar da amizade porque tem o lance do respeito de um trabalho que essas pessoas construíram."

Marelo Justo/ UOL
Imagem: Marelo Justo/ UOL
As duas horas de festa acabaram contando com menos da metade das apresentações do cronograma --previsto inicialmente para cinco horas. Dos mais de 12 convidados da cena, só puderam se apresentar Haikaiss, Costa Gold, Consciência Humana, SNJ, Ndee Naldinho, Cynthia Luz e Rincon Sapiência, que se revezaram por 15 minutos cada um.

E, durante o percurso, o bloco fazia questão de parar e entoar um "sai do baile" para os poucos inícios de confusões que eram criadas entre foliões.

Representante feminina

Única representante do sexo feminino a subir no trio, Cynthia Luz, 26 anos, vem crescendo como mulher, jovem, branca, sem ter vindo do gueto, ao contrário do cenário predominante masculino e da periferia.

"Nunca tive vida de luxo, sempre na correria. Tem algumas realidades que consigo entender, outras não, por ser privilegiada em outros sentidos. A minha ideologia fala de amor no geral, no meio onde pessoas estão guerreando o tempo todo", diz.

"O importante é lembrar o nosso propósito e missão acima de todas as coisas como gênero, raça. Me sinto honrada de estar aqui", disse a mineira, que só debutou neste Carnaval por causa da proposta em ter o rap na maior festa do país. "A rua está tendo a oportunidade de falar uma linguagem que muitas pessoas não associam ao Carnaval, mas de repente estão aqui."

Rap é compromisso

Um dos maiores —e antigos— nomes da cena hip hop nacional, Ndee Naldinho, 51 anos, precisou enxugar o repertório para duas músicas. Escolheu dois clássicos da década de 90: "Essa é a Lei" e "O Quinto Vigia".

"São ritmos mais acelerados, que combinam com o Carnaval", disse o rapper, que fez questão de participar de mais uma edição do Beatloko, bloco que ficou conhecido por unir gerações de cantores renomados com novos talentos.

"O rap antigo é mais comprometido com o lado social, diferente da maioria dos jovens artistas."

Golpe de R$ 16 mil

Foi por pouco que o primeiro bloco de rap do carnaval de rua de São Paulo deixou de realizar sua quarta edição. O contratante levou um golpe do trio elétrico contratado, no valor de R$ 16 mil, e não apareceu com o carro na Avenida Marquês de São Vicente, no bairro da Barra Funda.

"Soube da notícia quando cheguei do Rio hoje, depois de estrear o bloco na cidade (no Museu de Arte Moderna, no Parque do Flamengo), e achei que ia direto conhecer o trio", disse o DJ Cia, idealizador do Beatloko.

Ele disse à reportagem do UOL que não prestará queixa na delegacia. "São intermediários que alugam os carros. Às vezes é o mesmo carro com outra pessoa. Delegacia não vai adiantar muito. Vamos atrás da pessoa e tentar achar. Foi dinheiro do bolso sem patrocínio de ninguém".

O contratempo não abalou a organização, que conseguiu a ajuda de outro bloco, que desfilava nos arredores da região oeste da cidade, emprestando o trio elétrico para receber convidados e atrações, e atender os fãs que aguardavam em frente ao Fórum Trabalhista Ruy Barbosa.