Economia

Magnata por um dia: os aplicativos para aluguel de barcos e iates

Magnata por um dia: os aplicativos para aluguel de barcos e iates

Autor do clássico Moby Dick, o escritor americano Herman Melville resumiu na abertura de sua obra-prima a paixão por tudo o que fosse ligado às aventuras mar adentro. “Sou atormentado por uma coceira interminável por coisas distantes. Eu adoro navegar por mares proibidos”, escreveu ele em 1851. Naquela época, ganhar os oceanos em barcos a vela era a única forma de viajar entre os continentes. Com o advento de novos meios de transporte, os deslocamentos por via marítima se sofisticaram, tornando-se parte de um universo bastante limitado de pessoas — aquelas que têm tempo e dinheiro para se dedicar a barcos e longas viagens. O fato é que, sem contar o capital inicial para adquirir um veleiro, lancha ou iate, os apaixonados por esse hobby costumam dispor de algumas dezenas de milhares de reais por ano apenas para deixar sua embarcação aportada em uma marina — fora a contratação de um marinheiro, a manutenção do barco, o combustível e a obtenção da licença para conduzi-lo. Em resumo: um luxo para poucos.

Pois um alento aos sonhadores menos endinheirados começa a vir da internet: uma série de aplicativos estrangeiros está surgindo para possibilitar o aluguel de embarcações, em um modelo de compartilhamento semelhante aos de casas e apartamentos mundo afora. “A cultura da economia compartilhada não tem mais volta”, afirma Sérgio Alexandre, sócio da consultoria PwC. “No Brasil, 72% das pessoas já usam algum tipo de serviço desses, como o de compartilhamento de carros, quartos ou patinetes e, agora, o de barcos.”

O mais popular entre esses aplicativos é o Nautal, de origem espanhola e especializado em aluguel de embarcações de lazer de vários portes e capacidades de passageiros. Em águas brasileiras desde fevereiro deste ano, ele vem sendo chamado de “Airbnb dos barcos” e oferece o aluguel de aproximadamente 400 lanchas, iates e escunas por diárias que variam de 900 a 25 000 reais, com serviços como bufê, bebidas e até passeios de wakeboard incluídos nos pacotes. “Vimos uma oportunidade enorme de criar a cultura do turismo náutico no país”, diz Sabrina Ribeiro, responsável pela operação da Nautal no Brasil.

Desde a chegada do aplicativo ao país, o empresário Armando Faria anuncia seu catamarã na plataforma. Aportada em Angra dos Reis ou em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, a embarcação é alugada entre oito e dez vezes por ano. “Eu moro no barco, e o aluguel é uma das minhas fontes de renda”, afirma. Faria conta que a maioria dos aluguéis é realizada por famílias ou grupos de amigos que utilizam seu catamarã por alguns dias. Habilitado a pilotar o veleiro, ele mesmo leva os turistas, muitas vezes estrangeiros, para passear pela Costa Verde fluminense. “Disponibilizo cozinha, geladeira, churrasqueira”, relata ele, que cobra entre 1 000 e 1 250 reais diários pelo aluguel mais um adicional por passageiro.

Outras plataformas de compartilhamento, como a própria Airbnb, já vêm oferecendo barcos em seu rol de acomodações. Mas esse aplicativo não tem um filtro específico, listando-os apenas entre quartos de propriedades particulares e pousadas. Ainda não é possível, por exemplo, alugar a embarcação para um prosaico passeio no mar. A evolução para essa possibilidade, porém, é uma questão de tempo. Os donos de barcos estão entusiasmados com esse tipo de negócio, principalmente quem já costumava alugá-los por outros meios. “O modelo via aplicativo traz maior segurança tanto para o proprietário quanto para quem está procurando um passeio marítimo. Acredito que, aqui em Ubatuba, existe um potencial gigante para isso”, avalia Daniel Rio Godinho, administrador e dono de três embarcações que ficam na cidade do Litoral Norte de São Paulo e hoje já são negociadas por aplicativos.

Mesmo companhias que mantêm apps de compartilhamento de barcos e ainda não atuam no país já colocaram em seu radar a vasta costa brasileira. A americana Boatsetter, por exemplo, concentra sua operação nos Estados Unidos, mas planeja a entrada no mercado brasileiro em breve. “Vemos no país uma atratividade muito grande para o aluguel de pequenas embarcações, como lanchas e veleiros”, diz Julien Geffriaud, diretor da empresa. Navegar pode não ser preciso, mas também não é apenas um luxo para poucos afortunados.

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663