Economia

José P. Kupfer | Lei de Murphy ataca na economia global

José P. Kupfer | Lei de Murphy ataca na economia global

A OMC (Organização Mundial de Comércio) autorizou os Estados Unidos a impor sobretaxas de importação compensatórias a países da zona do euro, no valor de US$ 7,5 bilhões. A decisão, anunciada nesta quarta-feira (2), é mais lenha na fogueira das disputas em curso no comércio exterior, com efeitos negativos sobre os fluxos de negócios internacionais e o próprio  crescimento econômico global.

Autoridades europeias reagiram mal à decisão da OMC, que, em parte, decidiu em favor dos Estados Unidos uma disputa de uma década e meia envolvendo subsídios europeus à Airbus e americanos à Boeing. A outra parte da disputa, referente às queixas dos europeus, em relação à concessão de subsídios pelos Estados Unidos à Boeing, será julgada em alguns meses.

O temor de que, depois dos já prolongados embates comerciais entre Estados Unidos e China, um novo foco de tensão, agora entre Estados Unidos e Europa, prejudique a economia global derrubou os mercados de ativos ao redor do mundo. Recuos fortes, em torno de 3% numa única sessão, marcaram o dia nas bolsas de valores dos Estados Unidos, Europa, Japão e também nos mercados emergentes, como o Brasil. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, caiu 2,9%.

Enquanto acumulam-se indicações de que a atividade econômica mundial caminha para uma desaceleração, com risco de culminar num quadro de recessão, guerras comerciais e tensões geopolíticas em áreas de produção de petróleo contribuem para piorar a situação e acentuar tendências negativas. A primeira "Lei de Murphy", aquela segundo a qual o que pode dar errado vai dar errado, está em plena ação.

Há muita coisa que pode dar errado na economia mundial, sem que incertezas provocadas por guerras comerciais compliquem ainda mais o cenário. Mas as provocações do presidente americano Donald Trump em relação à China e as pressões do mesmo Trump no Oriente Médio, jogando o aliado Arábia Saudita contra o inimigo declarado Irã, estão ajudando a atividade econômica no mundo a enveredar por um caminho de crise.

Já bastavam as dificuldades enfrentadas pelas economias ocidentais mais ricas para sair do estado de baixo crescimento em que se encontram depois de escaparem da fase aguda do grande crach de 2008. Se mesmo com juros negativos e injeções maciças de dinheiro pelos bancos centrais, a atividade não deslancha, com tensões no comércio internacional e eventos desestabilizadores com0 o Brexit, o ambiente só pode piorar.

Revisões para baixo das projeções de crescimento econômico se tornaram rotineiras ao longo de 2019. Em julho, o FMI (Fundo Monetário Internacional) cortou sua projeção para o crescimento da economia mundial pela quarta vez consecutiva desde outubro de 2018. Agora, o avanço global previsto é de 3,2%, em 2019, e 3,5%, em 2020. É possível que nova revisão venha a ser anunciada até o fim do ano.

Na terça-feira, a OMC divulgou uma redução drástica em suas estimativas para a evolução do comércio internacional, neste e no próximo ano. Os fluxos comerciais devem agora avançar apenas 1,2%, em 2019, e 2,7%, em 2020. Em abril, as projeções eram de um crescimento de 2,6%, neste ano, e 3%, no ano que vem. Grande exportadora, a Alemanha, maior economia da Europa, ingressando numa recessão, é a primeira vítima do encolhimento do comércio exterior.

Decifrar o que vai se passar na economia americana nos próximos trimestre é chave para definir as perspectivas econômicas globais no futuro próximo. Até aqui, os sinais emitidos são mistos. Enquanto emprego, consumo e serviços ainda mostram robustez, investimentos e atividade industrial perdem vigor. Analistas convergem para o entendimento de que a tendência predominante seria a de desaceleração.

O próprio Trump tem contribuído para que as coisas deem errado. Sua ideia de reservar mercados para empresas americanas e seus produtos, independentemente da capacidade de competição delas, sobretudo com suas congêneres chinesas, enfrenta uma espécie de paradoxo.

Para que a estratégia tenha um mínimo de chance de ser bem sucedida, o dólar precisa se enfraquecer ante as outras moedas. Mas, como moeda de reserva internacional, a cada choque na economia global, os capitais correm para o dólar, fortalecendo-o. Dólar valorizado opera no sentido inverso ao pretendido por Trump, estimulando importações e dificultando exportações.

Visto sob esse ângulo, não é difícil entender as reclamações de Trump em relação à atuação, segundo ele tímida, do Fed (Federal Reserve, banco central americano). Na mesma direção, funcionam os  ataques protecionistas, com imposição de barreiras e tarifas, desfechados por Trump contra chineses e agora europeus. Sem um dólar fraco, que, em teoria, poderia ser obtido se o Fed fosse mais agressivo no corte dos juros de referência, resta criar barreiras tarifárias e não tarifárias à entrada de produtos estrangeiros mais competitivos no mercado americano.

No mundo em que hoje prevalecem as cadeias de valor, que entrelaçam a produção global, restrições ao comércio internacional atuam como poderosos elementos de contração da atividade econômica em praticamente todas as partes do mundo. Se, sem tais restrições, a economia já não ia bem, com elas, como determina a célebre "Lei de Murphy", o que pode dar errado tem grandes chances de dar errado mesmo.