Economia

José P. Kupfer | Bolsonaro repete políticas do PT para economia

José P. Kupfer | Bolsonaro repete políticas do PT para economia

Ao anunciar redução pela metade dos juros cobrados no cheque especial, a Caixa fez, mais uma vez, aquilo que os governos do PT faziam, em seus  esforços para impulsionar a economia, pela via do estímulo ao consumo. Usar bancos públicos para forçar a redução de taxas de juros nos bancos privados foi uma política muito criticada, sobretudo nos governos de Dilma Rousseff.

De 10,11% ao mês, na última semana de outubro, a Caixa cortou os juros do cheque especial para 4,99%. A taxa recuou de 217,7% ao ano para 80% ao ano. Na média do mercado bancário, os juros do cheque especial estão em 12,4%, o equivalente a 307% ao ano.

Ao reduzir os juros do cheque especial na Caixa, o governo força os concorrentes a correr atrás e também cortar os juros cobrados de seus clientes. É mais uma ação adotada sem muito alarde pelo governo Bolsonaro para estimular a demanda e animar a atividade econômica.

A mais conhecida dessas medidas remete à liberação de recursos do FGTS, agora reforçada pela decisão de antecipar os pagamentos antes previstos para 2020, acelerando o calendário de liberações e fechando a transferência de R$ 40 bilhões ainda em 2019. Mas há outras providências que, sob a capa de objetivos diferentes, visam mesmo dar algum fôlego à economia no curto prazo.

Também o pagamento de um 13º salário, em 2019, aos beneficiários do Bolsa Família pode ser incluído nesse grupo de estímulos. O mesmo princípio com vistas a  engrossar o caldo do consumo está presente na medida provisória do Contribuinte Legal, um Refis com outro nome que permitirá a renegociação a perder de vista de dívidas com a União, em montante que poderia chegar, segundo estimativas, a R$ 1,5 trilhão.

Mesmo em valores inferiores aos inicialmente previstos, a repartição com estados e municípios dos resultados do leilão de áreas da cessão onerosa do pré-sal contribuirá para injetar combustível no consumo. Na mesma direção operam os cortes de juros em geral, com efeito positivo já sentido principalmente em linhas de crédito com garantias, caso dos financiamentos imobiliários, consignados e de veículos.

Embora com presumíveis efeitos limitados, todas essas medidas devem trazer benefícios no curto prazo. Não é por outra razão que as projeções dos economistas já localizam um ânimo antes inexistente na atividade econômica. As estimativas para o crescimento da economia no terceiro trimestre, negativas há alguns meses, agora são francamente positivas.

Para o período julho-setembro, a expansão prevista está agora em torno de 0,4%. Mais forte ainda, a se confirmarem as previsões, será o crescimento no último terço do ano. Os analistas de conjuntura estão apostando agora que a economia vai avançar, no fim de 2019, por volta de 0,7%.

Esse empuxo não será suficiente para fazer o PIB (Produto Interno Bruto) crescer mais de 1% neste ano, mas teria poder para dar mais gás à atividade em 2020. De fato, se o crescimento de 0,7% previsto para o último trimestre de 2019 se repetisse por quatro trimestres, a economia avançaria 2,8% em um ano.

Numa espécie de "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", o ministro Paulo Guedes e sua equipe passaram, mais recentemente, a acumular medidas de estímulo ao consumo. A maneira sem alarde, meio "às escondidas", com que tais medidas vêm sendo adotadas pode ser explicada pela repetida negação do diagnóstico segundo o qual a atividade econômica se mantém fraca em razão de uma profunda crise de insuficiência de demanda, sustentada por altos índices de desemprego e ociosidade. Uma contradição entre a necessidade e as convicções teóricas.

Nas hostes de Guedes, a convicção é a de que as políticas de demanda dos últimos anos fracassaram e não devem ser retomadas. Foram elas, na avaliação do ministro e de seus assessores, as responsáveis pela deterioração do quadro fiscal e pela má alocação geral dos recursos. Esses fatores teriam levado à baixíssima produtividade exibida há tempos pela economia brasileira.

Ainda bem que, na "hora H", a teoria, na prática, é outra.