Economia

Análise: Discurso nazista mancha a política econômica às vésperas de Davos

Análise: Discurso nazista mancha a política econômica às vésperas de Davos

O presidente Jair Bolsonaro demorou 17 horas para definir a exoneração de Roberto Alvim da Secretaria Especial da Cultura. Ele, que tem uma relação próxima com um dos novos correligionários do presidente, Paulo Skaf, presidente da Fiesp, publicou em suas redes sociais um dos pronunciamentos mais vergonhosos deste pouco mais de um ano do governo. A cada hora passada sem a confirmação da demissão, mais profundas eram as manchas deixadas pelo discurso inspirado no chefe da propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels. As máculas vão além da área da Cultura, comandada por Alvim. Elas estigmatizam a política e as diretrizes econômicas do governo Bolsonaro às vésperas de uma viagem do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao Fórum Econômico Mundial, a ser realizado em Davos, na Suíça, a partir de terça-feira, 21.

O encontro nos alpes suíços é um filhote tardio da ofensiva globalizante que os Estados Unidos empreenderam após o fim das duas Guerras Mundiais no século XIX. Órgãos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) foram criados justamente para impedir o ressurgimento de pensamentos imperialistas como os que nortearam o nazismo. O Brasil luta hoje para integrar essas organizações porque os líderes econômicos nacionais entendem que seu engajamento global é cada vez mais importante para destravar investimentos e o desenvolvimento do país.

Não só, mas também por isso, uma resposta ágil do governo era premente. Demorou tanto que chegou a assustar, uma vez que poderia não ser a primeira decisão do presidente em dar de ombros para uma crise envolvendo seu ministério. Marcelo Álvaro, ministro do Turismo, mesmo exposto no escândalo das candidaturas laranjas, está no cargo até agora. Fábio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação, envolvendo em um caso de conflitos de interesses, também foi mantido no comando da pasta. Não seria surpreendente, embora nauseante, se Alvim fosse garantido na Cultura.

Dawisson Belém Lopes, pesquisador de Relações Internacionais da UFMG, diz perceber um esforço grande do governo brasileiro em tornar o país num pária global. O caso de Alvim nos isola ainda mais no mundo. “Fazer uma reverência ao nazismo tem o condão de mudar a forma como o mundo enxerga o Brasil”, diz ele. “Mais do que ignorar as queimadas na Amazônia, o nazismo é um dos nervos mais sensíveis da comunidade internacional.” Um governo que se dispõe a esse tipo de manifestação, a dar vazão a este tipo de discurso, só pode ser contra a vida e contra o desenvolvimento social e econômico. Não há lugar para isso no século XXI. A demissão de Alvim demorou, mas veio sem deixar dúvidas de que essa é uma linha que não poderá mais ser ultrapassada. Ainda bem.