Economia

A instabilidade do mercado da maconha nos países onde ela é legalizada

A instabilidade do mercado da maconha nos países onde ela é legalizada

A maconha tem dado um barato danado ao mercado financeiro. Desde 2015, quando empresas dos Estados Unidos e Canadá abriram negócios atrelados ao uso medicinal da cannabis, mas também ao consumo recreativo, as ações subiram e desceram (veja o quadro) ao sabor do vento alimentado pela briga política que envolve a liberação da droga e movimenta qualquer sociedade — mesmo nas franjas mais liberais da América do Norte. Tome-se como exemplo do susto, de expansão e queda, a farmacêutica canadense Tilray, listada na Nasdaq de Nova York. Entre julho e setembro de 2018, seus papéis valorizaram-se 500%, e a companhia teve o valor de mercado equiparado ao de gigantes tradicionais como a American Airlines. Passada a euforia, veio a depressão — no mesmo setembro de 2018, num intervalo de apenas três dias, houve encolhimento de 65%. Desde então, a Tilray vem descendo a ladeira. É o caso de perguntar: era então apenas fumaça? Ainda é cedo para certezas absolutas.

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A volatilidade da cannabis, a acelerada esperança de bons negócios seguida de rapidíssima descrença, é parte do vaivém típico de novas oportunidades. O empresário canadense Brad Poulos, professor de finanças e empreendedorismo da Universidade de Ryerson (Canadá), arguto especialista no ramo, identificou no primeiro semestre de 2019 acelerada fuga de capitais das companhias de ervas. “Os acionistas ficaram decepcionados”, diz Poulos. Para Viviane Sedola, brasileira que criou uma plataforma digital, a Dr. Cannabis, voltada para o comércio da droga a serviço da saúde, “o investidor está interessado, mas a parte regulatória é incerta, o que o deixa receoso”.

Não é o fim do mundo, e a curva de ganhos pode empinar de novo, porque a legalização da maconha é fato ainda muito recente, em construção. Quando se medem os próximos passos, com base em estimativas, há entusiasmo. A primeira produtora de cannabis a abrir o capital, em julho de 2016, foi a canadense Canopy. É a empresa mais valiosa do setor, avaliada em 7,5 bilhões de dólares (veja o quadro abaixo). Até 2025, a indústria global colada ao canabidiol, a substância mais usada nos medicamentos, deve movimentar 166 bilhões de dólares ao ano. Além do Canadá e dos Estados Unidos, país em que há legislação diferente em cada estado, há claros indícios de autorização em outras plagas, inclusive no Brasil. Hoje, o plantio é proibido mesmo para uso medicinal, mas quem não consegue arcar com os milhares de reais necessários para a importação vem recorrendo à Justiça. Já houve pelo menos trinta casos em que famílias foram autorizadas a plantar maconha em casa. Estima-se que o mercado brasileiro de maconha medicinal possa alcançar 4,7 bilhões de reais ao ano, quando (e se) ele for legal.

A indefinição, essa que costura os dólares em torno da cannabis, é roteiro comum à infância de outros setores da economia, como o dos bitcoins — o dinheiro eletrônico criado em 2008. O valor da unidade dessa moeda digital saltou de 1 000 dólares para cerca de 20 000 dólares, somente em 2017. Agora, contudo, está parado no patamar dos 8  000 dólares. Há casos de valorização desproporcional, de inchaços artificiais que minguaram abruptamente. Foi o que aconteceu, numa longínqua viagem histórica ao século XVI, com as tulipas. Quando os primeiros exemplares dessa flor desembarcaram na Holanda, vindos da Ásia, chegou-se a pagar, por um único bulbo, o equivalente ao salário de vinte anos de um artesão. Veio a calmaria, e o preço foi normalizado. Muita gente faliu inapelavelmente. Mesmo a internet, uma unanimidade hoje, viveu tempos de montanha-russa. Na virada do século XX para o XXI, o comércio ligado à web, que se encontrava em rápida ascensão, cresceu, cresceu, e se tornou uma bolha que estouraria, numa dramática derrapada financeira. A recuperação levou anos. Com a cannabis convém acompanhar o humor das agências reguladoras. A legalização pode fazer dela uma ótima tacada. Mas, se não vier, tudo poderá virar fumaça.

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Publicado em VEJA de 6 de outubro de 2019, edição nº 2655